Encontrando as semelhanças

 

Por Nathalia Quintiliano

Quando aceitei começar essa coluna confesso que fiquei meio perdida. Há alguns anos venho tentando iniciar escrever e esse ano, finalmente, deram meus primeiros voos. Mas nunca escrevi com um olhar tão pessoal, assim, na primeira pessoa… Talvez porque a primeira coisa que aprendi nesse trabalho foi que a minha opinião não importa tanto assim. Parece meio duro, eu sei, mas a tentativa de se manter imparcial – ou diplomática – quando se vive em um ambiente tão internacionalizado acabou custando um pouco da minha opinião pessoal em prol da boa convivência e bem-estar comum.

Logo na minha primeira missão, quando estava na fronteira da Turquia com a Síria, eu notei que minha visão de mundo seria desafiada (ainda bem). No primeiro dia de trabalho, ao ser apresentada à equipe, notei que nunca havia sido colocada em um local tão pequeno com tantas nacionalidades diferentes: Meu gerente era belga e casado com uma moçambicana e falava Português fluentemente, assim como árabe, francês e inglês. Nosso vice-diretor era sudanês muçulmano casado com uma sudanesa crista que morava em Londres, mas passava a maior parte do tempo cuidando de refugiados na Itália, em um projeto de uma igreja. Todos nós respondíamos ao nosso diretor geral que era Somali/Canadense. Entre os meus colegas havia uma etíope muçulmana e um etíope cristão, uma espanhola, um egípcio, um kosovar e um sérvio, uma iemenita, um argelino e uma brasileira descendente de sírios nascida e criada nos Estados Unidos. Apesar de todas as chances de dar errado, o escritório funcionava muito bem.

A última pessoa a quem fui apresentada foi à uma palestina, e fiquei pensando o que ela pensaria quando descobrisse que eu tinha um pé no judaísmo, além de ser casada com um judeu e viver em um ambiente judaico? Apesar de eu manter opiniões fortes e absolutamente contra os assentamentos, e achar que são um grande tiro no pé de Israel como nação, ainda assim, o que ela iria dizer quando soubesse que o Rabino da Sinagoga do bairro me conhece por nome? Mal sabia eu que não só ela iria saber, como também conhecer e conviver muito bem comigo e também com o meu marido (agora ex, mas deixemos o tópico para outro texto). Começamos a nossa amizade em um pequeno restaurante perto da fronteira de Bab al-Hawa (hoje infelizmente um território dominado pelo grupo Hay’at al-Sham, afiliado ao Al-Qaida) onde frequentávamos juntas depois do trabalho para fumarmos narguilé (não recomendo) e beber Sahlep durante o gelado inverno turco – uma espécie de mingau com aroma de canela, esse eu recomendo! Nos encontramos também em Istambul onde nos divertimos juntas.

Shereen, assim como a maioria das palestinas que conheci quando visitei a Palestina, é uma mulher forte. Ela não segurava nada na boca dela, era tudo “na lata” mesmo, podia ser o Secretário-Geral da ONU e ela ainda levantaria a sua voz. Eu admiro muito isso nela, e apesar de termos discutido por assuntos como religião e aborto, onde tínhamos opiniões bem opostas, conseguíamos nos encontrar na natureza do nosso trabalho, na preocupação com as pessoas e também na admiração mútua. Ela um dia me disse que gostaria de conseguir se afastar emocionalmente de algumas coisas, para fazer o trabalho andar, enquanto eu admirava o fato dela não se afastar emocionalmente de nada.

Ela não era apaixonada por animais como eu (talvez o termo mais pertinente seja completamente pirada por qualquer bicho), mas quando ela se deparou com um cachorro machucado na fronteira foi imediatamente me chamar e cuidar do meu “turno”, enquanto eu fui cuidar dele, com a ajuda da minha amiga-alma-gêmea brasileira/síria que mencionei no parágrafo acima. Ao mesmo tempo, quando começaram a reclamar sobre a presença do cachorro (ou quando me julgaram sobre o fato de eu estar preocupada com o cachorro quando adultos e crianças viviam um estado de caos e luto perene). Shereen levantou a voz por mim imediatamente, e ainda apelidou o cachorrinho de “Habibi”. Ela foi embora não muito tempo depois, quando saiu da ONU para voltar ao ativismo na Palestina, mas meu relacionamento com ela me ensinou muito, e talvez ela nem saiba disso. Conseguimos nos atentar às nossas semelhanças em vez de ficar realçando as nossas diferenças, e descobrimos que apesar de termos opiniões distintas tínhamos valores muito parecidos, e também tínhamos a plena convicção de que conflitos – como Israel e Palestina – são muito mais complexos do que o preto e branco que as pessoas gostam de enxergar.

——-

 

 

Anúncios
Published in: on agosto 17, 2017 at 7:23 pm  Deixe um comentário