OS PRIMEIROS DIAS NO TIMOR LESTE

Por Hélio Pacha 

 

​Em 2003, cinco oficiais de Polícia Militar foram designados para a Missão de Paz no Timor Leste (UNMISET), Maj PMDF NIÑO, Maj PMRO PACHÀ, Cap PMRO NILSON, 1º Ten PMGO Fem KEDMA e o 1º Ten PMSE ÁLVARO (In memoriam).


Assim que chegamos no Timor Leste desembarcamos na capital Dili e fomos recepcionados por um oficial Major das Filipinas, infelizmente não lembro o nome dele, uma pessoa muito simpática mas, ao mesmo tempo fria e concisa em suas atribuições.

​Ele conduzia uma minivan e logo de cara nos levou para um hotel de propriedade de australianos, tratava-se de um hotel simples montado em containers porém, com o conforto básico necessário, uma cama, um ar condicionado, um guarda roupas de duas portas e uma escrivaninha, o ambiente media mais ou menos 2,5 X 2,0 Metros.

Os banheiros eram coletivos e ficavam do lado de fora com boxes individuais, fechados por cortinas, com opção de água quente e isso já era muito bom , sanitários e pias, quanto ao papel higiênico, cada hóspede recebia o seu, ao entrar no quarto já avistava um rolo em cima da cama.

Havia um restaurante amplo com TV que recebia o sinal por meio de antena parabólica porém, ou assistíamos ao noticiário australiano ou canais de esporte onde predominava a transmissão de partidas de rúgbi, afinal além do proprietário ser australiano, a maioria dos hóspedes era australiana.

Ao chegarmos na recepção do hotel, eu e os demais designados para a missão de paz no Timor Leste, enfrentamos nosso primeiro desafio, entender o inglês australiano.

Em pouco tempo a frustração coletiva aconteceu, todos que estavam ali haviam sido submetidos ainda no Brasil a um exaustivo e exigente teste do idioma inglês durante o período de seleção mas, nenhum entendeu de imediato a primeira pergunta que nos fizeram.

Como chegamos todos juntos no hotel, na recepção após o cumprimento de praxe nos fizeram uma pergunta simples: “How many night mates?”, de imediato nós cinco nos entreolhamos e rimos, foi quando individualmente cada um se dirigia ao atendente e pedia para ele repetir a pergunta mas, continuávamos intrigados com o fato de não conseguirmos entender e com aquela sensação ruim e se perguntando: onde é que eu vim parar?

No inglês falado na Austrália é comum que façam a pronuncia da vogal “a” de forma aberta, como se, no português lêssemos um “a” com acento agudo e isso causou a maior confusão em nossos ouvidos e cérebro porque para nós soava totalmente estranho, nossas mentes não reconheciam o som emitido, foi quando tive a ideia de pedir para que o atendente escrevesse a sua pergunta em um papel, naquela altura ele já estava ficando impaciente pois, via do outro lado do balcão diversos estranhos conversando entre se mas, rindo a todo instante.

Logo em seguida, percebemos o quão simples era o questionamento, o atendente queria saber quantas noites ficaríamos no hotel, apenas isso. Rimos tanto uns dos outros que esse fato certamente ficou guardado pra sempre na memória de todos.

No dia seguinte, tudo começou bem com as providencias iniciais, durante a primeira semana tivemos a emissão das carteiras individuais de identidade das Nações Unidas na missão, fiquei com o número, CP4642 , CP significa Civilian Police, ou seja, Policial Civil; Recebemos palestras sobre direitos humanos, código de conduta, doenças tropicais, cultura e costumes locais, sobre a situação política do país, nos explicaram quais eram as funções dos policiais internacionais e ainda fomos submetidos a testes de inglês e de condução de veículos mais uma vez, etc.

Nossa primeira refeição de almoço foi realizada em um restaurante de comida indiana com opções variadas de carnes e legumes em sistema self service de atendimento, o sabor era realmente muito bom porém, uma das características que marcam a comida asiática é o forte sabor de pimenta e poucos se adaptam facilmente.

Posteriormente conhecemos outras opções de restaurante mas, como a maioria tinha o nome escrito no idioma da nacionalidade do proprietário, costumávamos colocar referências ou apelidos nos estabelecimentos


Esse que me referi anteriormente com comida indiana chamávamos de “Cabelo no Prato”, creio que nem preciso explicar o porquê. Havia ainda o “MacPateta” e o “Jack Cham”, eram os nossos preferidos. Outros restaurantes de comida portuguesa não tinham essa deferência. Em Dili não havia razão pra reclamar das opções para alimentação em restaurantes. No Distrito de Baucau comíamos geralmente no “Chuta Cachorro”.

Nessa mesma semana junto com o Ten ÁLVARO fizemos também nosso primeiro corte de cabelo em uma barbearia de um indonésio, descobrimos que por lá é tradição ao final do corte, o barbeiro aplicar uma rápida massagem nos ombros e pescoço do cliente, inclusive fazendo com que o pescoço estale para ambos lados, muito estranho e até assustador no início. Esse estabelecimento recebeu a denominação de “Quebra Ossos”.

Um outro fato inesquecível para nós aconteceu logo no início da semana, após a primeira manhã fomos deixados no hotel após o almoço para que às 14:00 Horas aproximadamente pudéssemos retornar aos treinamentos e orientações e assim combinamos para que naquele horário todos se dirigissem para a minivan entretanto, no horário marcado todos compareceram, exceto o Capitão NILSON.

Após os tradicionais 15 minutos de tolerância, percebemos que algo poderia estar acontecendo haja vista que não seria razoável chegar atrasado justamente e ainda no primeiro dia e como o Capitão NILSON era do mesmo Estado que eu, pediram para que eu verificasse o que estava ocorrendo.

A primeira coisa que fiz foi me deslocar até o apartamento dele e dar algumas batidas na porta porém, não obtive resposta, imaginando que ele tivesse saído, talvez eu o encontrasse nos banheiros ou no restaurante onde havia uma televisão, me dirigi até esses lugares mas, também não o localizei, passei então a perguntar por ele a todas as pessoas que encontrava todavia, não obtive êxito.

Decidi retornar a minivan para verificar se ele já teria retornado enquanto eu o procurava, só que não, o Capitão NILSON ainda não tinha chegado, optei então por retornar ao apartamento do NILSON, lembrei que ele tinha o sono muito pesado, que mal havíamos chegado ao Timor Leste após ter realizado uma viagem bastante desgastante, com fuso horário de doze horas e supus que ele poderia não ter levantado ainda em decorrência disso.

Chegando ao apartamento, aproximei meu rosto da janela de vidro canelado onde pode-se observar através dele porém, com imagem distorcida e tentei enxergar o Cap NILSON entretanto, o ângulo de observação da cama não me permitiu ter certeza do que eu conseguia ver.

Como eu já estava impaciente e chateado com o ocorrido e também porque naquele momento fazia muito calor e ainda considerando que durante o período em que eu tentava localizar o Capitão, os demais colegas aguardavam tranquilamente dentro da minivan com ar condicionado ligado, desloquei-me até a porta do apartamento já com suor escorrendo pelo meu rosto e passei a esmurrá-la violentamente, enquanto gritava o nome do Capitão NILSON.

Pode até parecer exarero mas, somente após uns dois minutos de batidas fortes na porta e já com outros hóspedes saindo de seus quartos para ver o que se passava, foi que finalmente o Capitão NILSON acordou tranquilamente dizendo “- Já vai! Que horas são?”

Após a bronca que dei e de ter explicado a ele o que estava acontecendo, retornei à minivan e em português expliquei a todos o ocorrido enquanto o Major Filipino reclamava cobrando pontualidade, em seguida, me dirigi ao Major e em inglês tive que dar uma desculpa esfarrapada ao nosso anfitrião dizendo pra ele que devido ao fuso horário e alimentação o Cap Nilson estava passando mal, com diarreia e dores estomacais porém, que o mesmo já estava a caminho.

Obviamente os demais colegas estavam se acabando de tanto rir. Assim que o Capitão NILSON se aproximou todos nós tivemos que conter as risadas no momento que o Major filipino cumprimentou o Nilson lamentando sua diarreia, desejando-lhe melhoras e recomendando que levasse consigo papel higiênico para o caso de necessitar pois, nem sempre havia essa disponibilidade nos banheiros públicos, haja vista que em muitos locais, seguindo as tradições muçulmanas apenas usavam água e sabão.

Uma providência interessante conduzida pela administração da Missão de Paz no Timor Leste é a designação para missões. Embora no Timor Leste eu estivesse bastante confiante em ser designado para uma boa função e em uma boa localidade, ninguém tinha certeza de como seriam os critérios adotados.

Em minha primeira missão em 1994, em Moçambique, não tive muita sorte, cheguei após as principais funções já estarem ocupadas e sem falar o inglês fluente, então sobrou pra mim uma designação em um lugarejo em ruinas e sem condições básicas de conforto, minha esperança era ter mais sorte desta vez, uma vez que eu já possuía pré-requisitos que poderiam me ajudar, estava em minha segunda missão, falava fluentemente o inglês e era o segundo de maior precedência hierárquica dentre os brasileiros recém chegados.

Após preenchermos formulários onde solicitavam informações básicas de currículo e experiência profissional e ainda informarmos nossas três opções de designação em ordem de prioridade, surgiu para mim a oportunidade de optar por trabalhar com uma tropa “especializada” .

No Brasil tive meu início de carreira trabalhando em unidades de Operações Especiais mas, já havia perdido o contato com esse tipo de atividade desde 1998, então como primeira opção apontei a Unidade de Intervenção Rápida (UIR) de Dili, como segunda opção a Unidade de Intervenção Rápida de Baucau e como terceira opção escolhi a Academia de Polícia. As Unidades de Intervenção Rápida também eram conhecidas em inglês por SPU (Special Police Unit/Unidade Especial de Polícia).

A Administração interna dos policiais internacionais adotavam um protocolo de designação que via de regra, seguia a máxima de colocar o “homem certo no lugar certo” e não bastava que fossemos voluntários, havendo vaga disponível, o candidato a ocupar a vaga sempre passava por uma entrevista realizada pelo comandante da unidade para onde se pretendia obter designação, tudo acompanhado pelo chefe da administração e pelo Sub comandante da missão.

Para não dizer que tudo saiu perfeito, meu colega de missão, o Major PMDF NIÑO também optou pela Unidade de Intervenção Rápida de Dili e como ele era o mais antigo (de maior precedência hierárquica) dentre os cinco policiais brasileiros, ele ficou na UIR de Dili e eu fui para a UIR do Distrito de Baucau.

Assim nossos primeiros dias se encerraram no Timor Leste e por opção eu fui designado para o interior do pais juntamente com o Major NILSON, nossa designação saiu para o Distrito de Baucau, sendo que eu fui para Unidade de Intervenção Rápida e o Major NILSON para o Distrito Policial de Baucau.

Finalmente eu havia sido designado de acordo com minha opção de escolha e para lidar com o que eu gostava de fazer, trabalhar entre que eram considerados os melhores tecnicamente, dentro da unidade considerada de elite da Instituição.

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Published in: on outubro 2, 2017 at 4:16 am  Deixe um comentário  

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