Reflexões após 2 meses na Guiné-Bissau

Por Fernanda Nossa

E no processo de adaptação à rotina na África, embora eu pretendesse escrever com muito mais frequência, dividindo cada experiência com as pessoas que ficaram lá no meu Brasil, fui impedida por uma crise de improdutividade crônica. Não era falta de inspiração, porque aqui ao menos pelas fotos que tiro todos os dias, cada esquina, cada rosto, cada atitude e cada personagem que crio nas pessoas que observo me inspiram. E não me inspiram pouco não, me inspiram muito: me inspiram a melhorar; me levam à ampla reflexão; me obrigam a conhecer mais ainda a autenticidade e amplitude da gratidão que devo à vida; me fazem fantasiar experiências diferentes para cada ruga do rosto sereno e lutador da senhora que vende pepinos sentada na calçada de uma rua no centro da cidade que me acolheu; me deixam boquiaberta com a força, os valores e a solidariedade que existem por aí, sem ninguém ver ou observar, no meio da rua ou numa tabanca qualquer; e me fazem crer, cada vez mais, que a ganância e o egoísmo talvez estejam entre as piores perversidades humanas já concebidas e, quando partem de agentes públicos, incumbidos de levar o país para a frente, tão mais grave quanto maiores os seus salários.


Acho que minha pouca produção de textos em muito teve a ver com a riqueza das experiências vividas nos meus exatos dois meses de missão e, na verdade, o que me bloqueou foi o excesso de informação, de inspiração e de motivos para fotografar e escrever; eram tantas coisas que me chamavam a atenção ao mesmo tempo, que eu não sabia por onde começar. E na primeira oportunidade em que algo saiu da minha cabeça, fui convidada a escrever periodicamente para o blog Missão de Paz e a pressão de escrever acerca de algo sobre o que ainda não tenho autoridade ou sólidas opiniões me deixou um pouco desconfortável e até meio receosa, já que sou neófita no Sistema Nações Unidas e talvez minhas visões sejam ainda muito românticas, muito rasas e muito modestas sobre determinados assuntos, de modo que não me arrisco a escrever tecnicamente nesta área. Decidi então manter o tom de crônica informal, o relato de quem conforme descobre a Missão, nela se descobre um pouco mais a cada experiência, e que de vivência em vivência, vai compreendendo a ONU, a África, a Guiné Bissau, o Brasil, a Polícia de Ordem Pública e a Guarda Nacional do país a que veio servir, a Polícia Militar do Estado de São Paulo, daquele país a que sempre servirá, e a Fernanda, a oficial de polícia e a mulher, as duas igualmente complexas.


Mas é melhor não falar sobre estas Fernandas, ou perco os leitores… Vamos de África! E chamar tudo isso de África e taxar com apenas alguns adjetivos estes 54 países, seus 30.463.792 km2, supor somente um modo de vida para os seus 937.546.079 habitantes e se atrever a dizer que conhece o continente exclusivamente com base no que observou em dois meses em um de seus menores Estados soberanos é uma atitude tão leviana quanto a de quem ‘insulta’ o potiguar afirmando categoricamente qualquer coisa, ainda que positiva a seu respeito com o seguinte começo de frase: “Ah, mas este povo do Norte…” . E assim como no meu Brasil de 8.514.876 km2, 212.127.062 pessoas, 27 estados com tamanho de países, onde nem o mesmo idioma, trazido por um mesmo colonizador, nem a mesma moeda e nem a mesma bandeira permitem unidade de comportamento, me parece loucura, prepotência e até burrice falar de África e de suas complexidades como uma coisa só. Se eu e meu compatriota aqui da missão ainda nem mesmo conseguimos chegar a um acordo sobre o nome da raiz que aqui é chamada de maniva, se mandioca ou macaxeira, não posso eu aqui neste singelo texto falar de outra coisa, senão Guiné Bissau. E ainda assim com ressalvas, ainda assim com cuidado, ainda assim ponderando muito cada opinião, pois as três cores da bandeira do país (quase quatro), as três religiões preponderantes, as quatro ou cinco principais etnias que compõem seu povo, as subdivisões regionais que repartem seu território e as suas inúmeras ilhas (mais de 100) determinam uma infinidade de possibilidades para a sua cultura, quase tão grande quanto a variabilidade de cores que suas mulheres conseguem estampar em seus vestidos, tecidos, turbantes, lenços e bambarans – este último o nome com o qual se referem ao xale com que transportam suas crianças presas às costas.


Impossível não se impressionar com a habilidade destas mulheres em carregar crianças em bambarans, baldes e tigelas sobre a cabeça, andando com equilíbrio, elegância e certeza, enquanto as mãos ficam livres para guiar outro filho, carregar sacolas ou se apoiar, antes do embarque, na porta traseira da van, aqui chamada “toca-toca” – o mais comum transporte público da Guiné-Bissau, também colorido em azul e amarelo, seguindo as regras multicromáticas da cultura local.


Inegável que o amarelo definitivamente brilha por aqui e, sendo minha cor favorita, ainda mais fácil notar que ele brilha em esquinas, em roupas, em cartazes, em paredes e em pessoas. Ele faz a pele negra cintilar exuberante e faz o marrom da areia que invade o asfalto da cidade chamar menos atenção. O pão vendido na rua, o mercado local com legumes expostos ao sol, roupas e calçados ao solo, o criolo falado rapidamente, pessoas indo e vindo num êxodo constante, tocas-tocas recebendo passageiros com o veículo em andamento, cores e mais cores interrompendo nosso raciocínio e embalando novas observações, viaturas buzinando a cada ultrapassagem – aqui, diferente do português falado no Brasil, viatura não é um termo usado apenas para veículos oficiais, é a palavra mais comum para dizermos carro, herança do colonizador que, aliás, há 500 anos vem perdendo espaço e vocábulos por aí e que já se atreve a dizer que não falamos português, mas brasileiro, o que é assunto para outra crônica – tudo impressiona e me faz pensar no atrevimento que a Comunidade Internacional comete ao dizer que veio ajudar a “organizar” o país. É nesta diversidade que está a sua beleza! Arrisco-me, aliás, á dizer que talvez seja nela que esteja contida a sua força!

Não sei ainda o quanto poderei ajudar exercendo a função de conselheira policial nas esquadras para as quais fui designada, a impressão que tenho é de que aprenderei mais do que ensinarei, de que colherei mais do que semearei, de que talvez eu precisasse mais deste contato do que os nacionais de mim, pois vivenciar a missão tem sido tão engrandecedor para as Fernandas, a pessoa e a oficial, que certamente a minha família e a minha polícia receberão mais do que as deles. Sim, digo AS no plural, porque no país há cinco diferentes Instituições Policiais, com atribuições exclusivas e também coincidentes, às quais já visitei algumas vezes e com as quais ainda estou me familiarizando, mas que já me ensinaram uma coisa importante: o valor de cada interação e de cada momento, a força da família expandida e a intensidade das relações profissionais em cada uma delas. Os guineenses tratam seus colegas nos quartéis como extensão de suas famílias, o que por vezes é verdade, pois há casos em que eles são mesmo a extensão da família: não é difícil, por exemplo, o sobrinho seguir o tio, o filho, o pai e a esposa, o marido, ao ingressarem na carreira de Forças Nacionais que ainda não possuem solidez no processo de seleção e recrutamento.


A relação com policiais abertos à comunidade internacional e, de certa forma, habituados à interação com estrangeiros (presentes na UNIOGBIS desde 1999) promove um sorriso imediato logo que estendo a mão. E há uma curiosidade implícita sobre o que trago comigo e sobre quem sou que faz com que eles valorizem demais aquele momento e aquele contato, me constrangendo algumas vezes pelo discurso que pouco preparei, já que não esperava tal deferência – sinto a autoridade do brasão redondo, da boina azul e o significado da minha farda em minha consciência a toda hora. Vejo que num simples boa tarde, numa palavra, num sorriso, numa visita a um posto de controle de fronteira, onde não há recursos ou apoio, onde não há luz ou água encanada, onde pessoas trabalham dia e noite à própria sorte pela defesa de uma soberania recém-implantada na nação (1974), há muito que se deixar ao nos esforçarmos por causar uma boa impressão. Tudo isso sem, no entanto, prometer o que não se pode, uma vez que falamos em nome das Nações Unidas, mas oferecendo o incentivo poderoso que um gesto de solidariedade pode mesmo representar, por mais apaixonado que isto pareça.


Nesta reflexão fui levada inevitavelmente ao meu Brasil, aos meus subordinados e aos meus alunos: quantas vezes eu poderia ter aproveitado mais uma conversa, uma ronda, um documento, uma ocorrência e um momento de interação para doar meu sincero apoio e exemplo? Fazer a diferença talvez seja mais fácil do que imaginamos! E assim passei os últimos dois meses dos meus quase quinze anos de oficialato: conhecendo pessoas que talvez eu não veja nunca mais e, deixando com elas – que seja em cinco minutos de conversa – algo meu que valha a pena (assim espero), ainda que um sorriso ou um aperto de mão.

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Published in: on setembro 27, 2017 at 3:57 pm  Deixe um comentário  

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