Um pouco da experiência de um policial militar na Missão de Paz da ONU em Moçambique

Por JOSÉ HÉLIO CYSNEIROS PACHÁ, colunista mensal.

Inicialmente, gostaria de agradecer pelo convite para ser um dos colunistas desse blog idealizado pelo Major SÉRGIO CARRERA DE ALBUQUERQUE MELO NETO, será uma grande honra poder fazer parte desse projeto.

Dessa forma para que os leitores possam conhecer um pouco mais sobre mim, iniciarei descrevendo um pouco sobre minhas experiências em missões de paz das Nações Unidas, sendo que hoje meu relato será sobre minha primeira missão, em 1994…

Em 1994 o comando da Polícia Militar do Estado de Rondônia (PMRO), na pessoa do Cel PMRO JOÃO MARCOS DE ARAÚJO BRAGA, se incumbiu de enviar os primeiros policiais militares da história da Corporação rondoniense para uma Missão de Paz das Nações Unidas, na ocasião essa missão seria em Moçambique (ONUMOZ).

O meu pai JOSÉ PACHÁ ANTAR havia integrado o Batalhão Suez em 1967 como Capacete Azul, sendo assim, na época eu quis dar a ele mais esse motivo de orgulho e me voluntariei. Na ocasião, ainda como 1º Tenente, dentre mais de trinta voluntários, fui indicado juntamente com  outros quatro corajosos policiais, Cap COSTA, 1º Ten DERZETE, 2º Sgt VIDAL e 3º Sgt MORENO, para representar Rondônia nessa, que classifico como, tão árdua missão.

Ao sair do  Brasil logo percebemos que o idioma seria a primeira grande barreira a ser vencida. Naquele período, embora a ONU já se exigisse o domínio da língua Inglesa, diversos policiais militares foram designados para missões mesmo sem fluência em Inglês, era o caso dos policiais de Rondônia.

Ao chegarmos em Moçambique fomos muito bem acolhidos pelos brasileiros que já se encontravam na missão porém, rapidamente percebemos que a nós, recém chegados e sem o domínio da língua inglesa, restaria sermos encaixados nas localidades que “sobraram”, longe da capital do país Maputo, onde ainda poderíamos encontrar certas regalias como boa comida, energia elétrica vinte e quatro horas por dia, chuveiros com água quente em hotéis relativamente bons, etc.

Logo no início da primeira semana as dificuldades começaram a surgir, o idioma oficial de Moçambique é o Português, todavia, entre os policiais que integravam o efetivo de Monitores da ONU só se falava o Inglês e nas palestras sempre dependíamos de um intérprete, além disso, o trânsito era de “mão inglesa”, totalmente diferente do que estávamos acostumados, mas graças a Deus, tudo isso foi superado.

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Um fato engraçado nas palestras traduzidas foi o fato de que todos da equipe de Rondônia ficávamos procurando em nossos dicionários uma das “palavras” mais utilizadas: “piareme”, depois, descobrimos e rimos muito, tratava-se da sigla PRM (Polícia da República de Moçambique).

Ao final da primeira semana de orientações da ONU, ambientações, aquisição de identidade de integrante do efetivo de Monitor das Nações Unidas onde recebi a identidade CP 0405 (Civilian Police/CIVPOL 0405) e também da obtenção de sucesso na prova para obtermos a permissão para conduzir veículos da missão, veio a minha primeira surpresa, fui designado juntamente com o Capitão COSTA que era o mais antigo dentre os representantes da PMRO para a Província da Zambézia e os outros de Rondônia iriam para a Província de Beira, ocorre que Beira era muito melhor em termos de infraestrutura.

Considerando que o Capitão COSTA havia participado da reunião onde essas designações foram decididas,  na primeira oportunidade que tive questionei por que ele como mais antigo, ou seja, de maior precedência hierárquica, não havia tentado ir para um lugar melhor, foi quando junto com a surpresa iniciou-se também o meu aprendizado pois, como resposta o Capitão COSTA me disse que ele e eu “éramos Caveiras”, ou seja, possuidores do Curso de Operações Especiais e por essa condição teríamos menos dificuldades de nos adaptarmos as piores condições a serem enfrentadas na Zambézia.

Ao chegar à Zambézia, cuja capital é Quelimane, fomos informados que iriamos ficar hospedados na Casa dos Brasileiros, local onde tivemos a felicidade de sermos recebidos por outros quatro compatriotas que haviam chegado algum tempo antes, Cap PMMS ORTALE, 1º Ten PMSE LOBO, 1º Ten PMES RICARDO e 1º Ten PMRR CHAGAS, dias depois acolheríamos o 3º Sgt PMAL JOSELITO, os brasileiros “sortudos” designados para a Zambézia.

Em Moçambique, pelo menos na região da Província da Zambézia em metade do ano o inverno é bastante rigoroso, principalmente à noite e o verão não deixa nada a desejar em termos de calor para os Estados brasileiros mais quentes, estávamos em maio e o frio era bem forte nesse período.

O Capitão COSTA, homem de princípios e comportamento exemplares, durante a viagem recusou-se a aceitar a minha sugestão de levar consigo a manta e o travesseiro da aeronave, isso lhe custou caro em nossa primeira noite em Quelimane.

Quando chegamos a Quelimane naquele dia o comércio local já estava fechado e como os brasileiros que já estavam por lá não sabiam de nossa chegada, tínhamos casa para dormir, mas não tínhamos sequer um colchão pra deitar em cima, o único jeito foi armarmos nossas respectivas redes de selva por baixo de uma grande mesa de jantar que existia na casa, o problema é que a rede ficava mesmo armada e não pendurada, assim seu assoalho ficava em contato direto com o piso gelado.

Nessa primeira noite passamos muito frio, mas eu ao menos tinha uma manta fina pra usar com o lençol e um pequeno travesseiro trazido da aeronave, já o meu amigo Capitão COSTA não tinha nada além de um lençol fino, lembro-me de ter adormecido enquanto ria bastante da condição do Capitão, provocando-o um pouco enquanto ele batia os dentes de frio.

Em Quelimane nessa época tínhamos energia vinte e quatro horas por dia, quase todos os dias e quando faltava energia durante o dia, pouco percebíamos, pois, além de estarmos no período de inverno, não dispúnhamos de TV, Computadores, internet, as roupas eram passadas em ferro a lenha, tínhamos telefone na casa porém devido ao custo das ligações racionávamos o uso do aparelho, geralmente falávamos com nossos familiares uma vez por semana.

Na Zambézia naquela época, posso afirmar sem dúvidas que para todos os brasileiros a maior dificuldade foi mesmo com a alimentação pois, embora tivéssemos contratado uma senhora para cozinhar pra gente e a culinária dela era bem similar à nossa, até pela influência portuguesa, a qualidade da comida era péssima e os recursos muito precários e com poucos temperos e iguarias disponíveis.

Por esse motivo algo que ficou inesquecível pra mim foi o cheiro de barata no arroz de terceira que comíamos uma vez que, só encontrávamos arroz de primeira nos poucos e caros restaurantes existentes, infelizmente ou era aquele arroz ou não comeríamos nada já que feijões, só consumíamos uma vez por semana, devido ao preço e escassez e batatas também não eram encontradas com facilidade.

Alvoradas ao som de rajadas de metralhadoras eram bastante comuns na cidade mas, nunca soube de onde exatamente partiam os tiros mas, serviam para nos deixar alertas e sabedores de que a qualquer hora um problema mais sério poderia surgir e nesse caso teríamos que colocar em prática o plano de evacuação.

O meu período morando em Quelimane durou três meses, nossas missões eram de fiscalizar o cumprimento dos Direitos Humanos por parte da Polícia Moçambicana, realizando visitas às delegacias, inspecionando as selas, entrevistando os presos e verificando as suas condições físicas, emitindo o devido relatório para cada caso.

Também tirávamos serviços de Dutty Officer (oficial de dia) onde tínhamos que pernoitar no escritório sede da ONU com a responsabilidade de receber eventuais documentos via fax ou transcrever mensagens recebidas por telefone ou rádio, o qual diga-se de passagem funcionava perfeitamente e proporcionava contato com quase todas as províncias do país. A segurança das instalações era proporcionada por militares do exército de Botswana, em Moçambique trabalhávamos desarmados.

Nossa maior preocupação era justamente com a própria Polícia Moçambicana pois, não nos viam com bons olhos,  haja vista que éramos uma espécie de Corregedoria para eles e como já mencionei, fazíamos parte de uma missão de paz onde os Monitores das Nações Unidas não  eram autorizados a portar armas, sendo assim se a situação se agravasse no pais não tínhamos como nos defender com armas de fogo.

Nas selas que visitei encontrei diversas vezes presos totalmente lesionados e ensanguentados mas, como era comum na localidade o linchamento de pessoas pela própria comunidade quando essas eram encontradas furtando ou roubando, todas as vezes fui informado pelos policiais locais de serviço que esses presos estavam naquelas condições porque estavam sendo linchados pela população quando foram “salvos” pela polícia. Obviamente essas versões eram corroboradas pelos presos e nunca tive certeza se falavam de fato a verdade.

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Na minha segunda semana, estávamos retornando de uma patrulha quando percebi um grande tumulto em uma feira popular e perguntei aos outros policiais internacionais que estavam na viatura se sabiam do que se tratava, me responderam que aquilo era um linchamento, pedi para parar a viatura mas, como resposta me falaram que era da cultura local e que não deveríamos nos envolver, a experiência frustrante de presenciar um linchamento, mesmo que por alguns instantes e não poder fazer nada foi angustiante e marcante na minha passagem por Quelimane.

Um outro fato bastante distinto e inusitado foi a chegada de um Capitão paquistanês em Quelimane o qual, ostentava em sua farda alguns distintivos de cursos operacionais e conduzia um bastão de comando que no Exército Brasileiro é comum ser utilizado apenas por Oficiais Generais. Rapidamente o bastão de comando virou alvo de cobiça por todos os brasileiros que queriam tê-lo como souvenir porém, o paquistanês não se desfazia de modo algum de seu bastão, não o trocava por nada.

Certo dia o Capitão paquistanês saiu em uma patrulha e deixou o seu bastão em uma das salas do escritório para pegá-lo posteriormente, logo todos os Tenentes pensaram a mesma coisa, ou seja, pegar o bastão de comando esquecido porém, por princípios, nenhum teve coragem de fazer isso mas, um dos Tenentes percebeu que o Capitão COSTA estava saindo ao final do expediente e levando consigo o tal bastão de comando.

Nenhum de nós sabia mas, o Capitão havia informado a outro CIVPOL de outro país, que estaria levando consigo o bastão esquecido para depois entregar  de volta ao Capitão paquistanês e independente disso combinamos de dar um susto no Capitão COSTA.

Ao chegarmos em casa iniciamos um diálogo falso e em voz bastante alta para que todos pudessem ouvir sobre as providências que a ONU, através do pessoal da inteligência estava adotando afim de investigar o furto do Bastão de Comando do Capitão paquistanês, acrescentamos a informação de que o autor do furto após ser descoberto seria repatriado e essa conversa logo preocupou o Capitão COSTA que rapidamente trocou de roupas, recolocando o seu uniforme e se dirigiu de volta as instalações da ONU conduzindo o Bastão de Comando com ele, enquanto a “tenentada” se acabava de rir, obviamente não demorou para ele perceber que se tratou de um trote e após seu retorno, todos nós fomos devidamente “mijados” enquanto não conseguíamos conter nossas risadas.

Após três meses aproximadamente, finalmente pude tirar 15 dias de folga e voltar ao Brasil e uma das coisas que providenciei pra levar ao retornar pra Moçambique foi uma grande caixa com alguns “macetes” pra comer um pouco melhor na missão por pelo menos algum tempo, dentre eles comidas semi prontas, aveia, farinha láctea, a pequena panela pra preparar a comida, leite condensado, farinha, etc.

Logo após retornar do Brasil fui informado que eu estava transferido para a localidade de Morrumbala, localidade cujo nome, reza a lenda,  derivou de “morro tomado na bala” e que ficava a cerca de uns 250 Km de Quelimane, 420 metros acima do nível do mar, com acesso por terra porém em estrada muito precária, a maior parte dela sem asfalto e situada em área ainda não desminada, ou seja, havia risco de passarmos por cima de uma mina anti pessoal ou anti carro, caso saíssemos da estrada por algum motivo.

Assim, durante os deslocamentos nossa maior preocupação era que qualquer pequeno acidente com a viatura poderia ser fatal caso saíssemos da estrada. Até se fosse o caso de termos necessidades fisiológicas, a orientação era que fossem feitas na própria estrada. No dia seguinte a minha chegada em Quelimane, me apresentei, providenciei toda a papelada necessária e fiquei aguardando a viatura que estava vindo de Morrumbala para me buscar, lembro que almocei e iniciei minha viagem para a nova designação à tarde por volta das 14:30 horas.

Ao chegarmos em Morrumbala por volta das 18:00 horas, meus dias mais difíceis na missão estavam começando e logo nos primeiros instantes, fui recebido por dois indianos, um deles o Post Commander (comandante do posto) Capitain KAYLASH, pense num comandante boçal e soberano! Pelo menos ele se achava assim, devido ao status do oficialato em seu país que, segundo ele, na polícia da Índia havia um soldado só pra carregar a mala ou maleta de cada Oficial indiano.

Além dos indianos, estavam lá dois egípcios, dois nigerianos e dois ganenses, o único que estava sem um “canga” era eu, pra variar. O cenário encontrado em Morrumbala na época da missão é simples de descrever… uma única rua com cerca de 1,5 Km , na metade da extensão dessa rua à esquerda situava-se a casa da paróquia, única casa ainda inteira na localidade e que havia sido alugada pelos CIVPOL os quais, já se encontravam no recém instalado Posto das Nações Unidas.

Ao final da citada rua passávamos por uma minúscula ponte e subíamos uma  ladeira onde em seu término podíamos encontrar uma das poucas estruturas de alvenaria intactas da cidade, o Hospital Regional, pouco antes em uma área aberta à direita, situavam-se quatro barracas de lona da ONU onde estavam funcionando a estrutura de escritório do nosso Posto de Trabalho na localidade  e também bem perto, um pouco mais abaixo, podíamos observar a segunda estrutura sem depredações, tratava-se do escritório dos Médicos Sem Fronteiras.

Fora isso, o que se via a cada lado da rua em toda a sua extensão eram estruturas de alvenaria depredadas, escombros de antigas construções e barracas de palha, chamadas pelos locais de palhotas, todas elas de alguma forma ocupadas por pessoas para improvisarem as suas moradas e os poucos comércios existentes que em sua maioria espalhavam seus produtos nas calçadas.

Enfim, vamos a minha recepção… após me apresentarem a todos os integrantes do posto e me darem as boas vindas de praxe, fui informado de que cada quarto da casa já estava ocupado com uma das duplas das nacionalidades ali representadas e que eu iria ficar dividindo o quarto com o Comandante do Posto.

A função que eu iria desempenhar no posto seria a de Oficial de Ligação, haja vista que era o único falante da língua portuguesa dentre os CIVPOL e até a minha chegada estavam utilizando os serviços de um interprete local, vindo de Quelimane  contratado pela ONU para essa função até que eu me apresentasse.

Ao adentrar no quarto onde inicialmente eu iria passar meus dias naquela localidade observei  no canto esquerdo uma cama de casal sem colchão e com palhas acima do estrado, encostada na parede do fundo, nessa parede havia uma janela de madeira que ficava acima da cabeceira da cama, à direita vi instalada uma cama de campanha, com mosquiteiro, e ao lado um baú cheio de equipamentos, os quais cada indiano recebe de seu país e contem itens de subsistência básicos e em conformidade com as características a serem encontradas em cada missão, inclusive climáticas, obviamente na hora lembrei de toda a falta de apoio dada pelo Brasil aos policiais brasileiros que vão para missões das Nações Unidas, costumávamos dizer que para os brasileiros era cada um por si e Deus por todos.

Tão logo entrei o Capitão KAYLASH me disse: “- Essa será a sua cama”, logo em seguida eu perguntei pelo colchão, como resposta ele me perguntou: “- Você não trouxe?”

Como eu não havia sido informado que tinha que levar um colchão, de imediato o sangue ferveu e eu xinguei a mãe do Capitão em português e quando ele me perguntou em inglês o que eu havia dito, me limitei em bradar Caveira nos ouvidos dele e me larguei na cama dura mesmo, cheio de raiva e descontentamento com a falta de espírito de corpo encontrada, afinal quando foram me buscar em Quelimane poderiam ter me informado sobre as condições que eu iria encontrar em Morrumbala e me orientado com relação a alguns itens essenciais a serem adquiridos e levados à localidade.

Após me acalmar, acionei minha lanterna, procurei o banheiro e fui tomar banho, encontrei um tanque cheio de água gelada, afinal estávamos numa localidade com certa altitude, no inverno, sem água encanada e sem energia elétrica, havia gerador na casa porém, nesse dia estava com avarias e aguardando reparos.

Não me restou outra opção naquele momento senão, encarar um banho super gelado, com os dentes batendo enquanto me lembrava dos treinamentos árduos de meus cursos buscando um alento e me auto motivando para suportar o desconforto temporário de um banho  bastante frio, a temperatura local beirava uns cinco graus.

Enfim, acertei meu relógio de pulso para despertar as 07:00 horas, haja vista que o expediente começaria às 08:00 horas e  fui dormir no lastro coberto por palhas me perguntando o que era aquilo pra quem já havia dormido no chão batido da selva amazônica em um dia com chuvas.

Assim enfrentei a primeira noite em Morrumbala até que por volta das 04:30 horas da manhã comecei a ouvir lamúrias e cochichos de ladainhas repetidas que me chamaram a atenção, alcancei minha lanterna e em seguida observei que se tratava do Capitão KAYLASH que estava orando antes do pôr do sol, ele era mulçumano, sem problemas, fechei os olhos e consegui dormir um pouco mais.

Exatamente as 05:30 horas ouvi um estampido bem próximo a minha cabeça, me assustei e dei um salto da cama, nisso eu esbarrei sem querer no capitão e o mesmo caiu por sobre sua bonita cama de campanha que estava montada ao lado, partindo-a ao meio.

Naquele momento o estampido que ouvira tratava-se do som do ferrolho da janela que só poderia ser destrancado com dificuldade por conta do ferrugem, através de força, a janela como disse antes, ficava na parede do fundo, pouco acima de onde a cabeceira da cama estava encostada.

Ajudei o Capitão a levantar-se e voltei a dormir, mais uma vez bastante chateado com o ocorrido, na sequência, pra completar a experiência da primeira noite, em plena 06:00 horas da manhã o Capitão KAYLASH após ter aberto a janela, liga seu rádio AM para ouvir as notícias pela CNN, sem sequer considerar que havia um outro colega brasileiro no quarto ainda dormindo. Para ele, apenas um tenente…

Após o amanhecer fui conhecer as instalações do escritório, participei da minha primeira patrulha indo visitar um dos vilarejos mais afastados e de cara tive que assumir o volante da viatura pois, embora a habilitação fosse exigência para todos os CIVPOL, poucos deles tinham experiência em condução de veículos, principalmente em estradas com condições tão precárias, a partir desse momento passei também a ser o motorista principal em todas as patrulhas que eu participava, inclusive com a concordância unânime de todos. Soube que isso também aconteceu em outros postos onde havia brasileiros.

 

Chegou a hora do almoço e mais um problema eu tive que enfrentar… todo feliz com meus gêneros alimentícios trazidos do Brasil, já com a boca cheia d’água e com bastante fome,  peguei um risoto de frango desidratado e cuidadosamente li as instruções de preparo, na cozinha encontrei dois fogões a lenha acessos mas, sem nenhuma panela, então coloquei minha comida, dei uma mexida leve, marquei a hora do preparo e dei uma saída retornando oito minutos depois, conforme previsto nas instruções.

Encontrei a minha panela no chão, com a comida embolada, parecia uma papa ressecada e no fogão havia uma grande panela com água, minha única reação no momento foi a de um Tenente com vinte e oito anos, e muito sangue nos olhos, dei um chute na panela e tudo foi ao solo, panela para um lado, tampa pra outro, foi aquela barulheira só, com água e carvões espalhados pra todo os lados e em seguida, todos chegaram correndo para saber o que tinha acontecido. Obviamente me encontraram esbravejando e xingando muito, revoltado com a falta de respeito para com a minha comida e querendo partir pra cima do Capitão nigeriano que havia tirado a minha panela do fogo, ainda bem que me seguraram.

 

Fui informado que os fogões  eram dos nigerianos e que a água estava sendo aquecida para um deles tomar banho antes do almoço, que todos poderiam usar os fogões mas, sempre depois deles, foi a gota d’água para mim que sempre prezei pela camaradagem e espírito de corpo.

Naquele momento, duas coisas aconteceram, uma delas foi que eu aprendi que era cada um por si naquele posto, que eu estava só e não deveria esperar nada de ninguém e a segunda coisa que aconteceu foi que todos passaram a respeitar aquele Tenente brasileiro magrinho e bravo que ostentava uma caveira na altura do peito em seu uniforme negro.

Naquela hora eu decidi que teria que encontrar um jeito de sair daquele meio antes que eu me envolvesse em uma confusão mais séria e fosse repatriado. Na mesma tarde fui visitar as instalações dos Médicos Sem Fronteira e dei sorte de encontrar um Português dentre os médicos, expliquei o ocorrido e fui informado que pelas regras internas eles não poderiam autorizar que alguém de outra organização dividisse com eles a mesma instalação porém colocaram a minha disposição uma palhota que havia no fundo do terreno, caso eu aceitasse.

A palhota era redonda, com cerca de 2,5 metros de diâmetro, extremamente baixa, só dava pra ficar em pé lá dentro me situando na parte central da mesma, a porta de entrada tinha cerca de um 1,5 metros e só era possível entrar após se abaixar bem.

No interior da mesma eu encontrei uma cama de solteiro com colchão de palha, uma pequena estante, uma tábua de passar roupas, e uns engradados de refrigerantes vazios. Havia uma lâmpada incandescente no centro da palhota.  Nas instalações de toda a base havia um gerador que funcionava diariamente até as 22:00 horas, no interior da casa dos médicos havia uma cozinha com fogão industrial e um banheiro, os quais eu poderia compartilhar com eles, bem como uma sala com sofá e um vídeo cassete que também estaria à disposição. É claro que eu não tive dúvidas em mudar pra lá.

Retornei às instalações da ONU terminei o expediente às 17:00 horas e fui informado que como eu era o mais descansado e recém chegado, aquela seria a minha primeira noite de serviço como Oficial de Dia pois, a cada noite um dos CIVPOL apesar de não trabalhar com arma de fogo, pernoitava no interior das barracas a fim de guardar os equipamentos rádio ali existentes, máquinas de datilografar, mesas, cadeiras, ventiladores, etc.

Após o jantar  fui para o local e seguindo as orientações, desliguei o gerador as 22:00 horas e amarrei os cantos da barraca principal onde eu iria ficar visando diminuir a entrada de ventos, fazia muito frio. Os rádios continuavam ligados por ação das baterias e se eu ouvisse alguma mensagem para “Zulo Bravo 7” eu deveria responder e transcrever no livro o que fosse transmitido.

Aquela noite também foi inesquecível pra mim que nunca havia passado por tanto frio antes, após desligar os geradores eu deitei em cima de uma mesa de formica sem tirar nenhuma peça de roupa, pelo contrário, eu estava de casaco e ainda me cobri com a mantinha  trazida do avião e coloquei minha balaclava pra esquentar a cabeça e ouvidos.

Naquela noite só consegui cochilar até as 02:00 horas pois, ficou insuportável continuar deitado na mesa, a qual por ser de fórmica absorvia bem a temperatura e caso  eu forrasse a mesa com a manta não teria nada para me cobrir, foram longas horas até que o dia amanhecesse, durante esse tempo eu fiquei no interior da barraca me movimentando pra lá e pra cá, envolto com a manta e de vez em quando saltitando pra me aquecer.

Para surpresa de meus colegas CIVPOL, no dia seguinte anunciei minha mudança. A partir de então novas experiências foram vivenciadas por mim que diariamente após as 22:00 horas e ter que ficar sem energia, passava a curtir momentos de solidão na palhota escura, tendo como  única distração ouvir músicas em um toca fitas Tojo portátil à pilhas, lembrando de casa enquanto olhava fotos de minha mulher sob a luz fraca de uma vela acesa.

À noite também era comum acordar com barulhos nas palhas que cobriam o teto da palhota, uma vez consegui identificar focando com a luz da lanterna e descobri que eram ratos que passavam pelos caibros, às vezes bem próximos da minha cabeça, nesse dia tomei um bom susto mas, só me restava dormir e torcer para que não caíssem em cima de mim.

Meu pior momento na palhota foi uma crise de cólica intestinal que senti no meio de uma das noites solitárias, eu não tinha como pedir por socorro, lembro que liguei a lanterna, vasculhei minha mala e encontrei um vidro com um resto de Buscopan vencido a ponto da tampa do vidro está com uma borra escorrendo e o vidro estar todo manchado mas, naquela altura era minha última esperança para aliviar o sofrimento, retirei a tampa e bebi sem água mesmo cerca de “um dedo” de remédio que ainda restava, adormeci uns trinta minutos depois e acordei sem dor na manhã seguinte.

Essas cólicas apareciam em mim de vez em quando ainda quando estava no Brasil mas, nunca havia sido diagnosticada a sua causa mas, em Moçambique, após esse fato ocorrer eu fui autorizado a ir até a capital Maputo em busca de atendimento médico e lá fui orientado por uma médica argentina a não mais “engolir sapos”, pois o que eu tive foi prisão de ventre causado por stress e eu deveria soltar minha raiva de alguma forma, eu até ri no momento mas, sabendo da causa de minhas cólicas, passei a lidar melhor com meus momentos de descontentamento e raiva e já faz vinte e três anos que não senti mais essas fortes dores estomacais.

 

Depois de alguns dias que eu estava morando em Morrumbala chegou após também ter sido designado para a mesma localidade, um Sargento da Guarda Civil Espanhola chamado JUAN RODRIGUES DELGADO o qual, havia sido enviado para Morrumbala para ser o meu “Canga” e parceiro de linguagem, afinal para os gringos Português e  Espanhol é tudo a mesma coisa e todas as demais nacionalidades com representatividade em Morrumbala estavam em duplas, menos o brasileiro.

Aconteceu com JUAN a mesma coisa que aconteceu comigo e ele me procurou desesperado pedindo apoio pois, não aguentava mais os “infieles”, palavra que ele usava para se referir aos muçulmanos que eram maioria no posto.

Depois de muito custo fui convencido por JUAN a desocupar uma edícula que havia nos fundos do terreno da casa onde os demais CIVPOL estavam residindo, o local era utilizado para armazenar o combustível para as viaturas e geradores das Nações Unidas, media cerca de 4 X 5 metros em paredes de alvenaria, cobertos por telha de zinco.

Depois de limparmos tudo, mudei para lá. O local passou a ser o lugar mais amplo e confortável dentre todas as instalações disponíveis e o melhor de tudo, separado dos demais CIVPOL. Obviamente com o tempo e sem desentendimentos e superando os choques culturais fizemos boas amizades com todos eles.

Dali em diante passaríamos a lidar com outras dificuldades, a alimentação era a maior delas, não dispúnhamos de energia, assim não tínhamos como manter nada gelado, muito menos congelado, não havia restaurantes em Morrumbala, tínhamos que comprar aves, matar e preparar, então combinamos que a cada dia, quem estivesse na folga ficaria responsável pela preparação da comida.

 

Compramos nossa primeira galinha, tratava-se de uma galinha que no Brasil chamam de Garnisé , muito pequena e musculosa, não sabíamos como depenar usando água quente então decidi ensinar ao espanhol JUAN como eu havia aprendido na época em que servi ao Exército e mostrei ao mesmo como descamisar uma ave.

Passamos então a fazer sempre do mesmo jeito, o problema é que a galinha garnisé é muito dura e cheia de cartilagens, a solução que encontramos foi deixar de molho no vinho branco, que vez por outra trazíamos de Quelimane,  deixávamos no vinho de um dia para o outro, isso amaciava  a carne e amenizava o problema.

Havíamos comprado também alguns ovos que alguns meninos passaram oferecendo mas, ao quebrarmos encontramos pintos quase prontos pra nascer ou então os ovos estavam podres.  Em Morrumbala havia muita escassez de comida, bastante miséria, muitas crianças nas ruas sem escolas, por lá as pessoas comiam até ratos, os quais eram comuns de serem encontrados a venda em tabuleiros nas calçadas.

A situação da alimentação só melhorou com a chegada em Mocuba, do COBRAMOZ (sigla em inglês para Contingente Brasileiro em Moçambique) , Mocuba era outra localidade que ficava entre Morrumbala e Quelimane  e como eu havia sido designado para receber o efetivo de brasileiros do COBRAMOZ na fronteira da província e guia-los até Mocuba, fiz amizades e sempre que podia eu passava por lá e pegava arroz e feijão com eles para poder cozinhar e comer um pouco melhor em Morrumbala.

Como não existiam restaurantes, durante as patrulhas minha alimentação era composta de bolachas Cream Cracker com sardinhas, no geral eu comia muito pouco e mal, o que me deixava bem desgastado  aparentemente, a ponto de no final da missão retornar ao Brasil nove quilos mais magro.

Em Moçambique havia três tipos de malária, além das duas que já conhecia de Rondônia, a Falciparum e a Vivax, existia outra muito temida e  conhecida por “Malária Cerebral”, hoje podemos comparar  a Malária Cerebral à Dengue hemorrágica, muito perigosa.

Todos os brasileiros que não viviam em regiões do Norte do Brasil morriam de medo de contrair Malária. Certa vez tive que pernoitar em Mocuba, nessa localidade haviam sido designados os Tenentes RICARDO e CHAGAS os quais, ao saberem que eu estava por lá me convidaram para dormir na casa deles.

Ao chegar lá, na hora de dormir, entrei no quarto do RICARDO e vi um colchão de casal envolto por um mosquiteiro, observei o RICARDO borrifar o interior do mosquiteiro com um veneno para mosquitos, passar repelente no corpo todo e se vestir com um abrigo esportivo de mangas longas, completando a vestimenta com um par de meias nos pés e outro nas mãos, só o rosto ficava de fora .

Nessa época já estávamos no verão e como não havia energia para ligar um ventilador, o calor era quase insuportável,  não sei como o RICARDO aguentava vestir tudo aquilo. No quarto dele havia um sofá com cobertura de napa, o qual após eu reclinar a parte de trás o mesmo se transformou numa cama larga, foi onde me deitei apenas de cuecas para dormir na ocasião, depois de muito reclamar do calor e insistir, o RICARDO me autorizou a abrir a janela dizendo que eu iria me arrepender pois, pegaria uma Malária.

No dia seguinte após aquela noite quente segui meu destino de volta a Morrumbala, dez dias depois recebi uma mensagem via Rádio do Tenente RICARDO, o qual, muito chateado me responsabilizou por ele ter adquirido uma malária que segundo o mesmo, só ocorreu porque eu havia dormido com a janela do quarto aberta, sendo que eu não havia adoecido, apenas ele. Apesar da situação de sofrimento de meu amigo, ri muito com seu raciocínio sobre o fato.

Estava chegando a data do Medal Parede, cerimônia de condecoração da Medalha das Nações Unidas e esta cerimônia seria conduzida em Mocuba, local onde todos os brasileiros a serem condecorados haviam sido autorizados a se deslocar a fim de participar da solenidade.

Nesse dia eu viajava de viatura para Mocuba, juntamente com o Tenente CHAGAS quando fomos chamados por populares à beira da estrada para socorrer duas crianças que haviam pego uma mina anti pessoal e teriam ido brincar com a mesma dentro de uma palhota,  causando sua detonação, devido a explosão as crianças ficaram gravemente feridas e com estilhaços espalhados pelo corpo.

Sem saber da localização do campo minado, no meio do caminho passamos pela área minada e chegamos até as crianças para conduzi-las até o COBRAMOZ, local onde havia médicos disponíveis, as crianças foram atendidas e medicadas.

Pela nossa participação no socorro às vítimas, recebemos elogios (LETTER OF APPRECIATION) da ONU e no Brasil fomos condecorados por bravura.

Após passar por péssimas condições de conforto, outro fato que causou grande preocupação a todos os CIVPOL em Morrumbala e  quase provocou um abandono geral do posto foi a notícia de uma infestação por Peste Bubônica numa cidade do Malawi mais próxima de Morrumbala, a qual ficava a 60 Km de onde estávamos porém, juntamente com JUAN que veio a tornar-se em um de meus melhores amigos, como dizíamos “quase irmãos”, convencemos aos egípcios e indianos a permanecerem na localidade.

Em outubro de 1994 ocorreram finalmente as eleições no país, na ocasião os CIVPOL participaram como Observadores Eleitorais Internacionais, deu tudo certo e Moçambique elegeu democraticamente seu Presidente.

Após mais três meses de sofrimento na missão, quando eu pensava que poderia ir em casa novamente, as licenças de afastamento foram suspensas, a ONU iria iniciar a retirada de todos os seus integrantes e encerrar a missão dali a vinte e cinco dias e não se justificava fazer concessões de liberações, foram os dias mais angustiantes que tivemos até que pudemos chegar em casa no dia 22 de dezembro de 1994, após sete meses de missão.

Após o término da missão ONUMOZ em dezembro de 1994, conclui que eu poderia ter sido melhor designado se na ocasião eu dominasse o idioma inglês e ao mesmo tempo percebi que o Inglês é uma língua fácil demais para aprender, assim sendo, decidi estudar o idioma e tentar outra missão de paz no futuro, essa oportunidade demorou nove anos para surgir novamente mas, eu conto na próxima oportunidade.

Pacha-2

Nada mais prazeroso profissionalmente do que poder representar bem seu país, seu Estado, sua Instituição, seu nome, tudo em prol da paz e da solidariedade. Sinto-me privilegiado e honrado por isso.

Força e Honra… Brasil!!!

 

NOTA DO SITE: Até o fim da década de 1990, a atual Polícia das Nações Unidas (United Nations Police – UNPOL) era denominado Civilian Police (CIVPOL). O termo é utilizado tanto para o indivíduo policial em missão de paz da ONU ou para o componente policial de uma missão multidimensional.

 

 

 

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Published in: on agosto 13, 2017 at 2:15 am  Comments (2)  

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2 ComentáriosDeixe um comentário

  1. Mal cheguei na minha Missão e vejo tantas semelhanças… orgulho em fazer parte da continuidade!

    Parabéns, Comandante!

    • Parabéns, Fernanda!


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