Erros comuns durante a entrevista pre-deployment

Meu nome é Rodrigo Kravetz de Oliveira[1], trabalhei como UNPOL, e durante minha missão no Sudão do Sul, tive a graça de ser escolhido e certificado pela Divisão Policial da ONU como AMS (Assessment for Mission Service) English Instructor. (O autor deste blog também a tem). No Brasil, isso seria o equivalente ao responsável no exército pelos testes de inglês, tiro e direção 4×4. Ou seja, uma das minhas funções era selecionar os candidatos policiais que iriam servir em missão de paz. O time de examinadores é conhecido como SAAT (Selection Assistance and Assessment Team) e, por isso, é comum ouvir que o teste também se chama SAAT. Na verdade o teste se chama AMS (e eu não sabia disso quando fui preencher o EASP). Mas por “usos e costumes” todo o mundo (literalmente) o chama de SAAT.

Por isso, tive a oportunidade de entrevistar diversos candidatos policiais de diversos países, tanto no exame inicial quanto na entrevista “pre-deployment”.

Para aqueles que não sabem, esclareço que, após a seleção do Exército (inglês, tiro e direção 4×4), e após o treinamento no CCOPAB, ainda há uma última entrevista por telefone, pelo pessoal da missão para a qual o candidato policial irá trabalhar. Por exemplo, caso seu nome seja enviado para o Haiti, um “board” de UNPOLs do Haiti irá te ligar e te entrevistar para a missão.

Desta forma, neste post eu gostaria de contribuir um pouco com a minha experiência e fornecer informações importantes aos candidatos policiais para missão de paz pelo ONU, a fim de que não sejam pegos de surpresa durante essa última entrevista. São informações que eu não tive, mas que podem fazer a diferença durante a seleção.

Do outro lado da linha

Quando eu fui entrevistado para a missão de paz do Sudão do Sul, recebi a primeira ligação, pasmem, a 1523 metros de altura no Pico Marumbi.  Eu e minha irmã tínhamos acabado de subir a montanha, em um final de semana, quando me ligaram. Portanto aqui vai a dica número 1:

  • Eles podem te ligar a qualquer hora e a qualquer momento.

O pessoal da missão obviamente dá uma olhada na diferença de fuso horário, mas lembre-se de que os UNPOL trabalham também durante os finais de semana. Portanto sempre tenha contigo, o tempo todo, a sua “colinha”.

Lá no meio da Serra do Mar paranaense a ligação estava horrível e cortando o tempo todo. Fui sincero, falei que não conseguia escutar. Eles então me pediram uma “land line” (telefone fixo) para que pudessem ligar novamente. Como avaliadores nós temos que testar todos os da lista que nos dão, por isso o pessoal da entrevista vai te ligar quantas vezes forem preciso, portanto fica aqui a dica 2:

  • Se a ligação estiver horrível, fale que a ligação está horrível! ao invés de tentar entender telepaticamente a mensagem, e tenha sempre um telefone fixo disponível.

Então eu forneci o telefone fixo do meu local de trabalho e sugeri para que ligassem em duas horas (o tempo suficiente pra voltar, tomar um banho, pegar a colinha e fazer a entrevista). A sugestão foi aceita e assim foi feito.

Perguntas da entrevista

Durante a minha entrevista me perguntaram coisas como “Quando o tráfego pode ser desviado”? Para cada “skillset” que você coloca no EASP eles irão te fazer uma pergunta a fim de verificar se você realmente trabalhou naquela função pela Polícia. Então uma dica óbvia é somente colocar sua real experiência no EASP. Nesta pergunta em específico eu esqueci de mencionar, por exemplo, que o tráfego pode ser desviado em função de comboio VIP. Portanto aqui vai a próxima dica:

  • Traduza as suas funções policiais para o inglês.

Como se diz mesmo “desviar o tráfego” em inglês? São expressões simples como essa que você vai usar durante a entrevista. Mas acredite, dá uma impressão muito ruim quando o candidato fica “ahhnn, uhnn” até achar a palavra (ou não achar). Escreva o que você faz no seu trabalho em inglês, e você vai ver o quão importante são palavras como “seize, assault, arrest, suspect, weapon” e por aí vai.

  • Pesquise sobre a missão

Essas perguntas são recordes em ficar sem resposta. No Sudão do Sul, perguntávamos “qual a capital do Sudão do Sul”. A maioria não sabia, alguns pediam um tempo, pesquisavam no Google (dá pra ouvir claramente o som de teclado através do telefone) e então respondiam. Na minha última entrevista, com candidatos da Holanda, apenas um dos entrevistados sabia a resposta. Aliás, ele explicou também a origem da crise no Sudão do Sul (ele obteve essa informação claramente pela Wikipedia, mas o que importa é que ele sabia o que estava dizendo), e tivemos uma ótima impressão sobre ele.

Por fim, perguntamos sobre os UN core values (e agora você deve estar se perguntando porque eu coloquei isso no final). Essas perguntas são feitas no começo da entrevista, coloquei aqui no final porque esse tipo de dica “todo mundo sabe”. Mas o que todo mundo não sabe é que as perguntas sobre Professionalism, Integrity, Respect for Diversity e Gender Mainstreaming podem (e devem) ser feitas de uma maneira diferente do tradicional “O que é profissionalismo”.

  • Como são feitas as perguntas sobre os Core Values?

Aqui vai uma: Me diga um exemplo no seu trabalho quando um colega seu faz algo anti-ético. Ah, por essa você não esperava! Essas perguntas indiretas são mestres em deixar candidatos calados. Portanto, pratique traduzindo coisas do seu cotidiano policial para o inglês.

Na minha experiência, nós perguntávamos ao candidato primeiro a definição do valor, e logo em seguida uma pergunta indireta como a de cima. O que comumente acontecia é que o candidato sabia “de cor” o Core Value mas patinava em um exemplo real.

Aliás, com relação ao comportamento anti-ético acima, se você for perguntado, responda o que a ONU espera que você responda: você imediatamente vai comunicar e dedurar o comportamento anti-ético; e aliás, os valores da ONU estão acima de valores pessoais!! Não diga que você vai fazer uma parte, um ofício ou passar para a P/2.

Ao final, da entrevista, agradeça a oportunidade, isso conta pontos e os entrevistadores terão uma boa impressão sobre você. Ao desligar o telefone, você será então classificado entre “Insuficiente, Suficiente, Bom ou Excelente”. A maioria dos brasileiros fica no Suficiente ou Bom (eu tenho a lista dos que foram para o Sudão do Sul, aproximadamente metade no bom, metade no suficiente), e é difícil alguém ficar no “not recommended”.

Eu espero que as dicas acima possam ajudar futuros candidatos brasileiros, a despeito da atual conjuntura econômica, e fortalecer a participação de policias boinas azuis nas missões!

Por fim, caso você queira se aprofundar sobre o teste em inglês em si, e praticar em casa, recomendo o site http://www.beapeacekeeper.com

Um ótimo dia!

[1] É Primeiro-Tenente da Polícia Militar do Paraná (PMPR).

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Published in: on julho 27, 2015 at 6:35 am  Deixe um comentário  

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