Metado do caminho percorrido

Por: Capitão PMDF Isangêlo Senna.

“Você viverá cinco anos em um!” – Era o que costumava ouvir de veteranos antes de partir para o Timor Leste.

No último relato, contei um pouco a cerca de minhas primeiras experiências na missão, sobretudo no Distrito de Covalima. Atualmente, estou lotado na Unidade Nacional para Pessoas Vulneráveis (National Vulnerable Persons Unit – NVPU), em Dili.  São passados mais de seis meses literalmente do outro lado do planeta. A esta altura, posso confirmar quão verdadeira era aquela afirmação dos veteranos. 

Vida de UNPOL no Distrito de Covalima  

Como UNPOL (United Nations Police Officer) encarregado de monitorar e aconselhar a polícia local em matéria de polícia comunitária, percorri todos os subdistritos e vilas de Covalima. 

Em consequência disso, vivi uma intensa interação tanto com a polícia local, quanto com autoridades e cidadãos ordinários. Este trabalho impõe inúmeros desafios, como, por exemplo, aqueles encontrados na direção de veículo 4X4. Neste caso, temos que nos habituar a locais íngremes, cruzar rios, desviar de crianças e animais ao longo das estradas, além de dividir passagens estreitas com outros veículos a beira de despenhadeiros. Uma surpresa a cada curva. 

Foto acima: Estrada para o Subdistrito de Fatululic.

No período em que atuei junto a Unidade de Polícia Comunitária de Covalima, nossos esforços foram centrados, principalmente, nos temas: eleição presidencial e grupos de artes marciais. Tais frentes de atuação foram escolhidas em razão dos cenários local e nacional. 

Em setembro de 2011, um conflito entre dois grupos rivais culminou na queima de duzentas casas e na morte de um policial local em Zumalai, Covalima. De igual forma, na Vila Camanassa, próximo a sede UNPOL/PNTL, cheguei a presenciar confrontos de igual natureza, de menor proporção todavia. 

Em nível nacional, temendo o uso político de tais grupos, o primeiro ministro timorense reuniu as principais organizações da sociedade civil afetas ao tema e anunciou a suspensão das atividades dos grupos de artes marciais durante o ano eleitoral (2012). Esta medida, juntamente com o trabalho de sensibilização realizado nas vilas de Covalima, parece ter surtido efeito, vez que problemas semelhantes deixaram de ser reportados no distrito antes, durante e após o certame. 

Foto acima: Centro de votação – Vila Holpilat

No mês de março, foi realizado o primeiro turno da eleição presidencial do Timor. Nosso trabalho, como UNPOLs, basicamente consistiu em supervisionar a atuação da PNTL (Polícia Nacional de Timor Leste) quanto a: a) carreatas e comícios; b) escolta de urnas e cédulas eleitorais; c) segurança de locais de votação; d) avaliação das condições gerais de segurança nos dias seguintes a eleição; e) etc. 

No segundo turno, já no mês de abril, atuei no Distrito de Bobonaro, aquela também uma região de fronteira com a Indonésia. De igual forma, tudo transcorreu em perfeita ordem. 

Foto acima: Almoço improvisado – Segundo turno da eleição presidencial

 

Foto acima: Dia de eleição –  com locais e UNPOL Vudt (Tailândia) Subdistrito de Lolotoe/Bobonaro.

Foto acima: Bobonaro.

Ademais, chama atenção a forma como a população compareceu em peso para votar, independente das adversidades correlatas a clima e relevo.

Foto acima: Orgulho da cidadã timorense com sua cédula de votação. Centro de votação – Vila Beco.

No primeiro turno, por exemplo, a face sul da Ilha sofreu com o reflexo de um furacão que atingiu o mar do Timor. Árvores tombadas nas estradas, aumento do volume de rios e desmoronamentos de encostas dificultaram ainda mais os deslocamentos de votantes e agências responsáveis por levar a eleição a efeito. 

Foto: Avaliação pós eleitoral – visita ao chefe Suco – Subdistrito de Fatumean

Convém acrescentar que, a pedido da embaixada brasileira, distribuímos cartilhas e palavras cruzadas em escolas públicas num esforço de promoção da língua portuguesa em Covalima. Este trabalho foi por demais gratificante, dada a reação da comunidade ao receber o material. Por aqui, em que pese a dificuldade da população em comunicar-se por meio da língua de camões, o timorense se orgulha de dizer que o português é a língua mais falada no hemisfério sul.

Foto abaixo: Distribuição de livros infantis em língua portuguesa.

Foto acima: Palestra ministrada pelo Capitão PMDF Senna para 400 alunos timorenses – Vila Suai Loro.

Nova lotação

Passado o primeiro turno da eleição presidencial, já com quatro meses na área de missão, recebi um convite para compor a equipe da National Vulnerable Persons Unit – NVPU sediada na capital Dili.

Naquele momento, meu sentimento era de que havia cumprido um ciclo importante do meu tour of duty. No interior, vivenciei um período de trabalho intenso onde fiz amizades das quais sentirei falta. Alí, o desafio maior fora a adaptação a um ambiente de privações. Todavia, era chegada a hora de abraçar experiências mais desafiadoras no campo profissional.

Na NVPU, continuo a trabalhar com policiais locais, ao lado de UNPOLs de Espanha, Samoa e Gâmbia. Sendo a NVPU uma unidade do Criminal Investigation Service, interajo com unidades voltadas para crimes contra pessoa, patrimônio, sistema financeiro e etc. Dai, a gama de policiais de outras nacionalidades aumenta consideravelmente (Portugal, Turquia, China, Índia, Austrália, Filipinas, Nepal, Malasia, Tailândia, dentre outras).

Convém rememorar que, desde a restauração dos poderes da Polícia Nacional Timor Leste, em 2010, os policiais locais são os responsáveis pelo ciclo completo de polícia, trabalho outrora realizado pela Polícia das Nações Unidas (UNPOL).

Dessa forma, cabe a nossa contraparte, NVPU/PNTL, supervisionar o trabalho das Unidades para Vítimas Vulneráveis nos 13 (treze) distritos do Timor em termos de atendimento de ocorrências e investigações. Da mesma maneira, compete a NVPU/PNTL prestar assistência às vítimas e conduzir a investigações em caso de crimes de grande repercussão perpetrados contra menores, mulheres, idosos e portadores de deficiência física ou mental, assim como realizar a prevenção e conscientização dos policiais timorenses e a população local sobre limites, direitos e deveres das partes.

Foto acima: Com Sr Dária, Cmt NVPU/PNTL.

Infelizmente, a violência doméstica, tal qual em vários outros países, é algo preocupante no Timor. Reputa-se tal realidade a fatores como: passado de violência generalizada no país; configuração tradicional da sociedade; rinhas de galo; dote pago pelo noivo em troca da noiva;  dentre outros.

Igualmente, abusos sexuais, inclusive contra crianças, são recorrentes. Por sorte, as instituições locais têm abordado a questão de forma franca e direta. A Lei Nº 7/2010 que alça os crimes domésticos a categoria de crime público é um exemplo disso.

Em suma, em meu novo dia-a-dia, tenho desenvolvido as seguintes atividades: a) supervisão e consultoria dos/aos policiais locais; b) interação com NGO, agências do Governo local e das Nações Unidas voltadas para o público alvo da NVPU; c) condução de treinamento para novos policiais que chegam à área de missão; d) etc.

Acomodação

Em termos de conforto, vive-se melhor em Dili do que em Covalima. Variedade de restaurantes e supermercados e o fornecimento de água/energia 24h são benefícios da vida na capital. Quanto à moradia, passei a viver no mesmo compound[1] onde residem o TC QOPM Valdemir e o Major Roberto Freitas (ambos da PMDF). Poder contar com a amizade e experiência desses oficiais faz toda a diferença no dia-a-dia.

Perspectivas

No dia 20/05, o Timor Leste completou 10 anos de restauração de sua independência.

Na mesma ocasião, tomou posse o presidente Taur Matan Ruak.

Em sendo o Timor uma república parlamentarista, em julho, novamente o pais vai às urnas. No momento em que a ONU se prepara para encerrar a UNMIT, o certame determinará aqueles que ditarão os rumos desta que é a mais nova nação da Ásia.

De toda sorte, nesta semana de festa, o patriotismo revelado pelo povo timorense impressiona. Não sem razão.

No cotidiano, convivemos com pessoas que conheceram o cárcere, a tortura, os refúgios nas montanhas; pessoas que tiveram entes queridos enterrados em covas coletivas, outros arremessados de penhascos; pessoas que assistiram massacres no interior de igrejas e que fugiram de rajadas de metralhadora enquanto sepultavam seus caros. Por todas estas razões resta claro que o timorense conhece o exato preço da liberdade.

Foto acima: Cemintério de timorenses tombados durante a resistência – Subdistrito de Lolotoe

Considerações Finais

 Em suma, ao longo do último semestre, tenho vivido em meio a um mosaico de nacionalidades e a interação com uma cultura que há pouca era completamente estranha a mim. 

 Juntamente com a necessidade de rápida adaptação a novas realidades nos campos pessoal e profissional, a experiência no Timor Leste tem sido algo gratificantemente único.

 No mais é administrar a saudada de casa, manter corpo, mente e espírito saudáveis, para levar a bom termo esta derradeira etapa de missão na terra do crocodilo adormecido.


[1] Grupo de apartamentos horizontais.

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Published in: on junho 9, 2012 at 5:07 pm  Comments (1)  

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  1. Muito bom Cap Senna, seu trabalho tem feito a diferença para este país. Podemos ver de perto sua dedicação aqui no timor.
    Abraço.


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