UM COMENTÁRIO SOBRE O TIMOR LESTE

(Díli, Timor Leste, Ásia, jun/2009) 

 

O Timor Leste caminha, a meu ver, com tristeza, a largos passos para se tornar uma terra com pouca identidade cultural devido ao fraquíssimo apego às suas tradições mais genuínas.

A barreira da linguagem é, sem sombra de dúvidas, um elemento que acresce resistências ao que poderia ser fácil esforço de progresso e identificação dos timorenses. A dificuldade de se estabelecer um contato, que não por frações de outros idiomas, dificulta e, por vezes, torna impraticável uma interação prolongada, a não ser que a pessoa domine ao menos três línguas que vão desde o bahasa da Indonésia, que é a língua de memória imposta ao Timor à força, o português herdado de Portugal em centenas de anos de exploração unilateral, a qual bem conhecemos, e o inglês da vizinha Austrália, que é necessário para a maioria dos negócios cotidianos, sejam formais ou não, já que o capital circulante é basicamente oriundo de outros países, aos quais a ONU impõe o uso da língua bretã.

 Nesse complexo conjunto de entendimentos o Tétum, que originalmente deveria ser um idioma nacional, se deforma, contaminado por tantas influências, falta de normatização, reconhecimento de expressões estrangeiras que preencham sua necessidade de entendimento, fugindo à sua gênese de língua singular de um povo.

Aliando a dependência do capital com a necessidade de investir em sustento e qualquer sorte de sonho e perspectiva, o timorense se vê transpassado por estrangeiras ideologias, comportamentos, posturas e entendimentos que o fazem distanciar-se das tradições e perder, quase por completo, a identidade como nativo.

 Não foi ensinado às novas gerações, em meio ao caos das últimas décadas, nem o conhecimento de suas raízes culturais, nem o culto dos seus valores diferenciais.

 Foi “esquecida” a obrigação de preservar a noção de identidade que esse povo possui, exatamente por ser tão diferente dos asiáticos e dos ocidentais. Falo em identidade, uma vez que os timorenses são completamente distintos do restante dos asiáticos por falarem o tétum e o português, por serem quase todos católicos, por terem gostos e uma mentalidade próxima da européia e por, ainda, conservarem elevados valores de família dentro das tradições lulik.

Esse Timor, bem ao sul de qualquer influência da Ásia, tem tudo para justificar ao mundo o fato de merecer ser uma nação independente: já decidiu, por si mesmo, que não quer ser mais uma ilhota da Indonésia perdida no oceano, alijada do cenário dos grandes “tigres” e fadada a nunca ser como Jakarta.

A independência que se precisa buscar nessa ilha de adolescentes, que se tornou o primeiro país do século XXI, além de ser geográfica, econômica e política, é a da ignorância do quanto o povo timorense precisa ser dono, de fato e de direito, desse “lugar onde nasce o sol”.

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Published in: on março 30, 2011 at 2:17 pm  Comments (1)  

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