Brasileiro da missão de paz da ONU relata momentos de tensão no Sudão

Tenente da PM paulista foi sequestrado e sofreu com calor e alimentação.
Oficial monitorou referendo que decidiu pela divisão do Sudão em janeiro.

Tahiane Stochero Do G1, em São Paulo

“Este não é o seu país”, foi o que ouviu o policial militar paulista Carlos Alberto Mello e Silva, de 30 anos, quando foi rendido e seqüestrado por algumas horas supostamente por integrantes do Exército do Sudão armados de fuzis no final do ano passado. Ele integra desde março de 2010 a missão de paz da ONU que monitora a situação de violência no país da África (UNMIS) e caiu em uma emboscada quando investigava a morte de dois colegas durante o roubo de uma carga de alimentos.

“Buscávamos informações em diversas comunidades e falaram que nossos homens haviam sido mortos e os caminhões levados por homens em uniformes. Porém, homens em uniformes, no Sudão, podem ser de qualquer guerrilha, do exército, até mesmo da polícia, ou de grupos de ex- guerrilheiros desertores”, disse o tenente Mello em entrevista ao G1 de Wau, a segunda maior cidade do Sudão do Sul.

sudao entrevista PM (Foto: Arquivo Pessoal/Reprodução)
Tenente da PM de São Paulo é instrutor da polícia do Sudão e integra missão de paz da ONU no sul do país africano em conflito (Foto: Arquivo Pessoal/Reprodução)

“Ao entrar em uma trilha de mata fechada, nos deparamos com vários homens armados de fuzil, que os engatilharam e pararam nossos carros botando-nos para fora dos veículos, dizendo ininteligíveis palavras da lingua Dinka (usada por uma tribo local). Estavam fardados como se fossem do Exército regular do Sudão, mas não tínhamos a confirmação. Depois de horas negociamos a nossa própria libertação”, diz o oficial.

“Só então percebemos que havíamos entrado em uma área onde o exército escondia tanques de guerra que haviam deliberadamente confiscado da ONU”, afirma.
 

“O comandante nos disse ‘Este não é o seu país’, e nos libertou após ter certeza que não sabíamos onde estávamos e que não havíamos tirado fotos do local”.

A experiência não impediu o oficial de continuar o trabalho como subcomandante da polícia da ONU no sul do Sudão. Mello é responsável pelo monitoramento dos conflitos e treinamento da polícia local e atuou em janeiro deste ano na supervisão de um referendo nacional determinou a divisão do Sudão, que tem o sul cristão e o norte, muçulmano.

O Sudão é o único país a ter duas missões de paz da ONU, que monitoram uma guerra civil que já deixou mais de 1,5 milhões de mortos e milhões de refugiados desde os anos 1990. O Tribunal Penal Internacional condenou por crimes de guerra e genocídio o atual presidente do país, Omar al-Bashir, que continua no poder.
 

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 Natural de Santo André, na Grande São Paulo, o tenente não se arrepende ter integrado a missão de paz. “Aqui, descobrimos realmente o significa pobreza. É usual vermos pessoas brigando por sacos de lixo nas ruas”, relata.

A principal dificuldade é com a infra-estrutura. “Na segunda maior cidade do Sudão do Sul, Wau, temos só uma rua asfaltada. Energia elétrica, só de gerador, e água limpa é um luxo de poucos”, descreve.

Outros problemas são o calor e a alimentação: a temperatura passa dos 50º C no sol e a comida é toda importada. “O suor evapora quase que instantaneamemte, e comida ao nosso estilo brasileiro por aqui, só trazendo do Brasil”, reclama o paulista. “As famosas diarréias do viajante são bem comuns,, portanto eletrólitos são recomendação constante ao militar vindo a uma missão de paz na África”, contou o PM paulista ao G1.
 

sudão entrevista PM SP (Foto: Arquivo Pessoal/Reprodução)Paulista (ao centro), com o grupo
de trabalho da ONU no Sudão
(Foto: Arquivo Pessoal)

Após o referendo que separou o Sudão do Sul do Sudão do Norte, cuja capital é Cartum, o policial diz que ainda há focos de conflitos, mas que estão sendo “rapidamente resolvidos com a ação da ONU”.

”Viver tudo isso é uma grande experiência. Ainda existem pequenos focos de conflitos, lutas isoladas de facções do exército que se amotinam e causam algumas baixas. Mas com o referendo, e secessão dos dois Sudões, reconhecida tanto nacional quanto internacionalmente como um processo democrático e pacífico, o Sudão deu um importante passo rumo a seu próprio crescimento como nação”, diz o militar, que comemora o sucesso do trabalho da ONU no pleito.

Fonte: G1.

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Published in: on fevereiro 27, 2011 at 6:34 pm  Comments (3)  

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3 ComentáriosDeixe um comentário

  1. Parabenizo ao Ten Melo da PMSP pelo trabalho realizado na UNMIS, sei exatamente da situação passada pelo Oficial, quando ingressei numa área de conflito entre o Norte e o Sul, na cidade de Abyei, onde permaneci por longos quatro dias, tendo a cidade ficado completamente fantasma, e onde todos os escritórios da ONU,foram queimados e depredados, e todo efetivo de funcionários civis evacuados.
    Acredito que na nova estruturação do país a região de Abyei será um grande calcanhar de Áquiles, considerando a sua importância econômica, e sua posição estratégica entre os dois países o Sudão e o Sudão do Sul.
    TC Alexandre José
    UNMIS/2007-2008

  2. Boa tarde (pelo menos aqui em SP), caro Ten Mello. Estou surpreso com a sua experiência relatada acima. Espero que esteja tudo bem agora. Gostaria que enviasse notícias mais constantemente.
    Grande abraço e fique com Deus.
    Cap PMESP Salgueiro

  3. CAPITÃO SALGUEIRO, PROMETO FAZÊ-LO MENSALMENTE.

    TENENTE MELLO


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