O rapper Wyclef Jean quer ser presidente do Haiti

As incursões de celebridades na política deixaram de ser uma novidade há muito tempo. O ator Ronald Reagan (1981-89) foi um dos mais influentes presidentes dos Estados Unidos. O dramaturgo Vaclav Havel foi símbolo do fim do comunismo na Tchecoslováquia e presidiu o país (1989 a 1992). Arnold Schwarzenegger, a estrela de Exterminador do Futuro, é governador da Califórnia desde 2003, e, no Brasil, são incontáveis os famosos que se arriscam na política. As motivações variam, mas para a mais nova estrela a buscar um cargo público, o rapper Wyclef Jean, de 37 anos, ser presidente do Haiti parece mais uma obsessão.

Clef, como é conhecido, despontou para o sucesso nos Estados Unidos em 1993, quando lançou Blunted On Reality, seu primeiro álbum como integrante do trio de hip hop Fugees, do qual faziam parte seu primo Prakazrel Pras Michel, também haitiano, e a americana Lauryn Hill, todos amigos de New Jersey. O Fugees brilhou, ganhou prêmios Grammy e, apesar de encerrado por brigas internas, lançou a carreira solo de Clef. Sozinho, o sucesso foi ainda maior. Ele produziu músicas para artistas como Whitney Houston e Carlos Santana, vendeu milhões de CDs e se tornou uma figura carimbada em eventos beneficentes nos Estados Unidos, como o tributo às vítimas dos ataques terroristas do 11 de Setembro. Em sua trajetória americana, Wyclef sempre se esforçou para ligar sua imagem ao Haiti, país que deixou aos nove anos, quando se mudou para o bairro do Brooklyn, em Nova York, onde o pai, Gesner, assumiria o comando da Igreja do Nazareno local, da qual era pastor.

Em 1997, ao receber o prêmio de melhor clipe de Rhythm & Blues da MTV, Clef se disse ofendido com o filme How Stella Got Her Groove Back, que fez uma piada dizendo que o Haiti era sinônimo de aids. “A aids é uma crise, não uma comédia”. A vontade de divulgar o país transformou o rapper em uma espécie de garoto propaganda do Haiti. No clipe de Hips Don’t Lie, seu último grande sucesso, em parceria com a colombiana Shakira, ele usa uma camisa com a bandeira do país. Na apresentação ao vivo dos dois no Grammy de 2007, as cores do Haiti estavam no pescoço do cantor. “Eu represento o Haiti em tudo o que eu faço”, disse em entrevista à revista haitiana Kompa. Também em 2007, o papel de “embaixador itinerante” se tornou oficial após a nomeação por parte do governo do Haiti.

“Por anos, tenho tentado ajudar o Haiti a crescer e prosperar, e agora acredito que tenho uma chance maior do que qualquer outra que terei de fazer a diferença”

 
Além de alardear a própria existência do Haiti, Clef se esforçou para mostrar a realidade do país, o mais pobre das Américas. Em 2005, estabeleceu a fundação Yéle para lutar contra a fome e a pobreza no Haiti e por meio delas atraiu o apoio de outras celebridades para a causa, como Angelina Jolie e Brad Pitt, e fez parcerias com o Programa Mundial de Alimentação, das Nações Unidas. Mas Clef não tinha vontade de mudar a realidade do Haiti apenas com ações sociais. Em 2004, escancarou seu desejo de comandar o país com a música “President”, no qual fazia uma triste alusão à realidade do Haiti, historicamente afetado por golpes e crimes políticos. “Se eu fosse presidente, seria eleito na sexta-feira, assassinado no sábado e enterrado no domingo”, diz a música. Nas ruas de New Jersey, onde vive atualmente, Wyclef circula com um triciclo decorado com o vermelho e azul da bandeira haitiana e com um desenho do palácio presidencial, sediado em Porto Príncipe.

APOIO Wyclef Jean saúda seus possíveis futuros eleitores nas ruas de Porto Príncipe na quinta-feira (5)

A candidatura era uma perspectiva para o futuro, segundo o que disse o próprio rapper à revista Time. “Se não fosse pelo terremoto, eu teria esperado uns dez anos para fazer isso”. Depois do tremor de 12 de janeiro, que deixou mais de 220 mil pessoas mortas, Wyclef Jean aparecia diuturnamente na televisão americana, a maior parte das vezes pedindo doações, por meio de mensagens de celular, para a Yéle. Sua imagem foi duramente abalada quando o site Smoking Gun revelou que Clef e seu sócio teriam recebido US$ 400 mil da própria fundação, por pagamento de serviços de produção e até pela participação do rapper em um evento. Quando voltou do Haiti, onde ajudou nos trabalhos de resgate, Clef gravou uma mensagem em vídeo se defendendo de todas as acusações. O rapper se disse “enojado” pelas acusações e afirmou que o dinheiro foi usado para os diversos shows beneficentes que fez para arrecadar fundos para a fundação. “Jamais peguei um centavo da Yéle para uso pessoal e contribuí com US$ 1 milhão para a ONG”.

Em texto publicado na quinta-feira (5) no site Huffington Post, no qual justificou sua candidatura, o rapper se disse preparado para encarar outras notícias negativas pelos próximos meses, ou mesmo anos, dependendo do resultado das eleições. Em entrevista a ÉPOCA, o haitiano Robert Fatton, professor Relações Internacionais da Universidade da Virginia, disse que a grande dúvida a respeito de Wyclef gira em torno de sua capacidade (ou falta dela) de comandar um país devastado sem ter qualquer experiência administrativa. Para Fatton, as chances do rapper vencer as eleições são grandes, especialmente porque ele tem potencial para emular a personalidade messiância do ex-presidente Jean Bertrand Aristide (exilado na África do Sul desde 2004), e buscar apoio nas favelas, nos campos de refugiados e entre os jovens, cansados de uma classe política “falida”. 

As palavras de Fatton foram comprovadas durante a semana pelo rapper. Clef diz que tomou a decisão de concorrer pela mulher, Claudinette, e especialmente pela filha de quatro anos, Angelina, quem ele espera que entenda que “viver para você mesmo, é viver de forma egoísta, mas que viver para os outros é o melhor sacrifício que se pode fazer como ser humano”. No canal de TV CNN, o cantor disse ter sido “chamado pela juventude” haitiana a se candidatar e afirmou que representa a “novidade” e a “neutralidade”. “Quando vejo o que se passou nos últimos 200 anos, tudo o que nossa gente sofreu, instabilidade política, golpe após golpe de Estado, eu sinto que, ao me candidatar, trago uma situação neutra, o que significa que Wyclef Jean pode se sentar com qualquer partido para ter uma conversa, de forma neutra”. Com seu estilo emotivo e carismático, o rapper representa a imagem do haitiano que deu certo, e que, cheio de boas intenções, volta para a casa para salvar o país. Resta saber se os haitianos vão acreditar em Wyclef Jean.

fonte: Revista Época.

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Published in: on agosto 8, 2010 at 12:10 am  Deixe um comentário  

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