A TROPA DE ELITE DA POLÍCIA NACIONAL DO HAITI

Sérgio Carrera de Albuquerque Melo Neto[1]

Davis Heberton de Sousa[2]

RESUMO

As atividades das unidades de operações especiais das instituições policiais pelo mundo vêm apresentando, ao longo dos anos, características novas de emprego e atuação, em face às constantes mudanças de cenários e em razão de fatores diversos que são diretamente impactantes na ordem social, particularmente no que se refere às atividades de ações policiais complexas e de crises. No processo de (re) estruturação das instituições policiais de países em situação de conflito ou pós-conflito, com a presença de Operações de Paz da Organização das Nações Unidas (ONU), o componente policial da ONU, United Nations Police – UNPOL promove atividades para o desenvolvimento das unidades especiais de intervenção, com o monitoramento, aconselhamento e treinamento dos policiais locais, implicando assim em mudanças que exigem uma constante adaptação do modelo policial, seja em termos de equipamentos, seja em mudança de filosofia de emprego e de filosofia de trabalho de seus efetivos. Neste artigo, será realizada uma abordagem sobre as condições estruturais e de emprego da unidade especial de operações especiais da Polícia Nacional do Haiti (PNH), mais conhecida como SWAT[3], no controle da situações de alto risco.

PALAVRAS-CHAVE: Polícia Nacional do Haiti, PNH, A Polícia da ONU, UNPOL, MINUSTAH, GIPNH, SWAT PNH, SWAT UNPOL.

ABSTRACT

The activities of the special operations units within law enforcement institutions around the world has shown, over the years, new characteristics of employment and performance, in face of constantly change of scenarios, and because of several factors that are directly impacting the social order, particularly with regard to the activities of police actions and complex crises. In the process of (re) structuring of a new police institutions in countries in conflict or post-conflict, with the presence of the United Nations (UN) Peacekeeping Operations, the police component of the Missions, known as the United Nations Police – UNPOL, develops activities for the improvement of special intervention units, including the monitoring, advice and training of local police, thereby resulting in changes requiring constant adjustments of the police model, in terms of equipment, change of the philosophy of employment in law enforcement agencies and mindset of its troops. In this article, there will be an approach to structural conditions of employment of the Haitian National Police (HNP) special operations unit, better known as SWAT, in charge of controlling and dealing with high-risk police situations.

KEYWORDS: Haiti National Police (PNH), United Nations Police (UNPOL), MINUSTAH, UNPOL, SWAT PNH, SWAT UNPOL. 

  

INTRODUÇÃO  

       

Toda instituição policial necessita de unidades com atribuições e treinamentos especiais para atuar em ações complexas e que requeiram treinamento e efetivo especializado. A Polícia Nacional do Haiti (PNH), única força de segurança pública e de defesa do país, vem recebendo desde a criação da Missão das Nações Unidas de Estabilização no Haiti (MINUSTAH), em 2004, recursos financeiros e aconselhamento técnico, teórico e prático, de seu componente policial (United Nations Police – UNPOL), através da adoção de ações que visam promover a reestruturação, desenvolvimento, aperfeiçoamento, autoconfiança e sustentabilidade da força policial haitiana, levando-a a uma desejável independência futura.

Recorrendo à legislação relacionada da PNH, UNPOL e MINUSTAH, e a experiência de policiais internacionais que atuaram no Haiti, onde lidaram com situações de solução de conflitos, administração de cenários diversos, aliado às dificuldades próprias de suas instituições e da vivência no Haiti, os autores apresentam um panorama sobre as dificuldades em desenvolver as atividades da SWAT haitiana, quer por questões políticas quer por falta de doutrina ou material.

O objeto de estudo do presente artigo foi baseado nas experiências profissionais dos autores e em dados colhidos entre os anos de 2006 e 2009.

 

ESTRUTURA E ATRIBUIÇÕES DA SWAT PNH E DA SWAT UNPOL

O Grupo de Intervenção da Polícia Nacional do Haiti (Groupe d’Intervention de la Police Nationale Haitienne – GIPNH), conhecido como SWAT PNH, foi criado em 1996. Subordinado diretamente ao Diretor Geral da PNH (DGPNH), maior autoridade policial haitiana. As principais funções da SWAT PNH são as de conduzir operações policiais especiais, ações de contra-terrorismo, resgate de reféns, cumprimento de mandados de prisão, situações de crise com reféns, ocorrências com elementos armados e barricados, seqüestros, operações anti-drogas, dentre outras ações de alto risco.

Em meados de dezembro de 2009, o efetivo existente na GIPNH era de 46 policiais, sendo 11 deles policiais graduados[4] e oficiais[5] (commissioned officers) e 35 (trinta e cinco) policiais não graduados (Non-commissioned officers)[6]. Todo o efetivo é composto por policiais do sexo masculino e sua estrutura interna está dividida em 6 times táticos, compostos entre 5 e 7 policiais cada um, possuindo um chefe de equipe (team leader) e seu assistente imediato.

A SWAT PNH não possui veículos adequados de condução da tropa para casos de intervenção rápida e os que existem não se encontram em boas condições de uso. Durante as operações e treinamentos, a SWAT PNH é conduzida pelos veículos da equipe de monitores da UNPOL (camionete 4X4 – Nissan Patrol). A Unidade possui ainda dois veículos blindados, doados pelos EUA, mas infelizmente, são muito grandes para as vielas, ruas e avenidas haitianas, sem contar com o alto custo de sua manutenção. A base SWAT está localizada na Avenida Toussaint Louverture, nas proximidades da área de logística da MINUSTAH (Logistic Base – Logbase) e do Aeroporto Internacional da capital.

                A Unidade de Operações Especiais (Special Operations Unit) da UNPOL, mais conhecida como UNPOL SWAT, é uma Unidade (ou seção) subordinada à Direção de Operações (DIROPS)[7], pertencente ao Pilar I[8] da Polícia da ONU na MINUSTAH. Ela é composta por 04 policiais internacionais que atuam diretamente, diariamente e conjuntamente, com a UNPOL PNH. Esses UNPOL’s são responsáveis pelo monitoramento, aconselhamento técnico e suporte operacional dos policiais haitianos[9], atuando desde o planejamento tático para as operações especiais até o acompanhamento in locu de todas as atividades desenvolvidas pela equipe haitiana. 

De acordo com a descrição do posto (Post Description) para a função de Chefe da Unidade, pode-se estabelecer um perfil não apenas para o team leader, mas para todos os integrantes da UNPOL SWAT. Além da experiência profissional, e de requisitos mínimos de “ Proficiência em francês ou inglês (oral e escrito); Experiência em planejamento operacional; e, Habilidade em confeccionar relatórios, apresentações, recomendações, outras qualificações são analisadas quando da seleção dos candidatos para vagas na seção:

 

a) Combinação de qualificação acadêmica, treinamento profissional e experiência operacional; b) Tempo mínimo de 10 anos de experiência em segurança pública com um mínimo de 4 anos de atuação, em nível de gestão, na área operacional e segurança pública; c) Conhecimento na área de operações especiais, prisões de alto-risco, entradas táticas, reconhecimentos e planejamento tático e operacional; d) Conhecimento aprofundado do Mandado da UNPOL na MINUSTAH; e) Forte habilidade de análise combinada com discernimento e bom julgamento; f) Extensa experiência policial nas áreas administrativas e operacionais; g) Conhecimento acima da média das condições do Haiti e ter habilidade de avaliar implicações econômica, política, cultural, e históricas sensíveis a região.[10]

São ainda definidos como atribuições e competências do Chefe da Unidade de Operações Especiais da UNPOL:

 

a) Integridade, profissionalismo e respeito a diversidade; b) habilidade para definir prioridades, planejar, coordenar,  e monitorar o trabalho dos demais; c) habilidade interpessoal acima da média e capacidade de estabelecer e manter parcerias efetivas e relacionamentos de trabalho em ambientes multiculturais e multi-étnico com respeito a diversidade; d) Aptidão diplomática, habilidade de negociação, e uma excelente capacidade de comunicação (verbal e escrita), incluindo capacidade de escrever e editar uma diferente variedade  de documentos e articular idéias  de maneira clara e concisa; e) capacidade de julgamento para solução de conflitos em assuntos específicos; f) Conhecimento de uso de computador e softwares e aplicativos mais importantes.[11]

Via de regra, buscam-se UNPOL’s com experiência policial na área de operações especiais e grupos de assalto. No caso da equipe haitiana, perfis semelhantes são projetados e adotados para a seleção do efetivo.

CONDIÇÕES DE TREINAMENTO

A área de treinamento da UNPOL na MINUSTAH é de responsabilidade do Pilar III[12] e, administrativamente, essa estrutura burocratiza e cria, por vezes, barreiras para a aquisição de materiais para o treinamento ou na utilização de estrutura física. Independente desse fato, a equipe SWAT UNPOL vem realizando ao longo dos anos treinamentos diversos na chamada SWAT Base. Esses treinamentos têm sido levados a efeito sob a responsabilidade e iniciativa dos UNPOL’s, que se desdobram para motivar e transmitir conhecimentos e técnicas novas aos policiais haitianos.

Os treinamentos realizados estão focados tanto no condicionamento físico como no técnico-profissional dos policiais haitianos, e incluem: a) treinamentos táticos na Academia da PNH; b) manuseio de armamento e tiro (havendo disponibilidade de munição); c) técnicas de rappel; d) assalto tático; e) proteção aproximada e VIP; f) defesa pessoal; g) natação[13]; dentre outros.

Em 2009, foram ministradas as primeiras instruções de tiro de precisão (sniper), após os membros da SWAT UNPOL receberem doação de munição do grupo responsável pela proteção pessoal do Presidente do Haiti (CAT Team). Diariamente, no período matutino, um treinamento físico é realizado coletivamente sob a supervisão e monitoramento da SWAT UNPOL e, semanalmente, as sextas-feiras, as equipes reúnem-se com objetivos de tratar de assuntos e ações executadas, além de planejar e discutir operações para a semana seguinte. Na oportunidade, os treinamentos e operações realizadas são alvo de análise e discussão (briefing e debriefing).

Mas a questão administrativa é muito mais complexa. Os treinamentos conduzidos pela equipe SWAT UNPOL não tem “um amparo legal”, por não estarem expressas em normas da Missão, e, se algum incidente ou acidente ocorrer, questionamentos surgirão quanto ao fato de não haver nenhum UNPOL do Pilar III (treinamento) acompanhando as instruções. Fica a grande indagação quanto ao ‘por que’ do impedimento do time SWAT UNPOL em legalmente treinar os haitianos, visto que são eles que acompanham as operações de alto risco com a GIPNH e devem, logicamente, estar em sintonia com os movimentos táticos.

 Na MINUSTAH, os membros do Pilar III (treinamento) não podem participar operativamente das ações policiais, enquanto que os policiais internacionais que atuam juntamente com a SWAT “não poderiam” conduzir os treinamentos.  A incoerência é visível, pois inviabiliza um trabalho de excelência com o principal grupo policial do Haiti. Para uma análise ainda mais complexa, a equipe SWAT UNPOL deveria se aproximar do Pilar II, pois dispõe de uma seção encarregada pelo apoio à Diretoria Administrativa da HNP (DCPA), a qual a HNP SWAT está subordinada, e tentar reestruturar e sugerir uma possibilidade transversal entre os 3 pilares para solução dessa questão, que é fundamental e tem evitado um melhor trabalho por parte da Polícia da ONU e uma evolução mais rápida da polícia do Haiti no campo das operações especiais.

Uma tropa especializada, em nível de SWAT, deve ter treinamento constante, próximo do real, principalmente na simulação de assaltos táticos, e, evidentemente, efetuando disparos reais. O policial deve estar constantemente familiarizado com o seu armamento e o que este pode lhe proporcionar em situações de confrontamento.

Reforçando a problemática do treinamento e padronização, Agrício da Silva [14] relata:

 “Um problema que pude visualizar durante alguns treinamentos que assisti da SWAT PNH é a falta de doutrina na questão dos procedimentos táticos que empregam nas operações reais, o que reflete a falta de treinamento e decisão de qual procedimento adotar, de forma padrão, entre os vários existentes. Tal falta de doutrina (…) é muito grave! Eles precisam padronizar procedimentos através de um curso especial, de acordo com a realidade haitiana.” [15]

                 A falta de padronização da GIPNH remonta a uma variedade de problemas, tais como a grande rotatividade dos policiais da ONU, que geralmente permanecem por um ano, diferenças culturais, de idioma e de técnicas de cada país.  

CONDIÇÕES DO ARMAMENTO E EQUIPAMENTO 

Os policiais haitianos dão preferência ao fuzil M4, calibre 5.56, devido ao potencial de seu calibre, sob o argumento de que lhe garantem uma imagem de maior confiabilidade nas operações. Mesmo que os policiais haitianos prefiram o referido armamento, que é excelente, ele não é o mais recomendado para a área de atuação da maioria das operações da SWAT, que são realizadas em áreas residenciais onde predominam construções em madeiras e existe maior possibilidade e risco de se atingir um inocente, ou mesmo um elemento da própria polícia. Em uma operação real, o risco de ocorrer uma transfixação do projetil utilizando um M4 é bem maior do que o se fosse empregado o MP5 (calibre 9mm), utilizado por vários grupos de assalto no mundo.

                A SWAT PNH possui 4 tipos de rifles calibre 7.62 (11 unidades – M1[16]; 05 unidades – M14[17]; 01 unidades – FAL[18]; 04 unidades – AK 47[19]); 04 tipos de rifles calibre 5.56 (01 unidade – AR18[20]; 06 unidades – T65 (M15)[21]; 01 unidades – GALIL[22]; 20 unidades – M4[23]); 01 tipo de rifle calibre 9 mm (07 unidades – MP5, com 14 carregadores[24]); 01 tipo de rifle calibre 12 (09 unidades – Shot Gun[25]) e 02 lançadores de granada.[26] Possui ainda uma metralhadora UZI, Calibre 9mm; 59 pistolas, sendo 33 BERETA (9mm, com 02 carregadores), e 26 SW (9mm, com um carregador), todas em condições de uso; além de 21 revólveres calibre 38mm[27]. A quantidade de munições existentes é de 2000 munições (Calibre 7.62mm); 38 munições (calibre 30 mm); 1230 munições (calibre 5,56 mm); 546 munições (calibre 12).

No que se refere à apresentação da tropa, o GIPNH, como a maioria dos grupos de assalto, possui uniforme diferenciado das demais unidades da PNH, o que gera por si, estímulo e motivação dos recursos humanos, além de fazer parte das doutrinas introduzidas por policiais da ONU.

Quanto aos equipamentos, destacam-se a existência de óculos de visão noturna (night-vision goggles – NVG). Contudo, não existem baterias para utilização dos mesmos, nem para as lanternas individuais ou mesmo algemas para condução de detidos.

Mas dentre os principais problemas está o fato dos policiais haitianos não disporem de munições para treinamentos, sendo esses realizados ‘a seco’ (sem munição) na maioria das vezes.

 

PROBLEMAS INTERNOS E DE INGERÊNCIA EXTERNA 

Além da realidade material já citada, vale ressaltar a condição dos recursos humanos do grupo de intervenção haitiana. Alguns policiais têm cursos de especialização realizados fora do Haiti, como na França e Chile. Isto contribui para o aperfeiçoamento do Grupo, através da disseminação das novas técnicas aprendidas. Mas na outra mão, a falta de padronização, já apontada por Silva, gera dificuldades na sincronia que deve existir entre os haitianos e UNPOL. Existe um complexo e paradoxal fator constante de divergência. 

Tal aprimoramento da interpessoalidade é de suma importância para também acabar com a barreira cultural e internacional, via intercâmbios com outros países. Fazer com que os policiais haitianos ouçam alguém de outro país é por vezes difícil e diferenças culturais e históricas são problemas diários nas atividades do Grupo de Elite. Um dos problemas encontrados, por exemplo, é a forte resistência aos aconselhamentos, quando se apresentam diferentes das técnicas utilizadas pelos haitianos. 

Devido à barreira multicultural e lingüística, alguns aconselhamentos dos policiais da ONU são por vezes ignorados e não-observados bem como as advertências são desconsideradas. São considerados por muitos policiais da ONU, como irredutíveis em algumas circunstâncias. Um exemplo clássico, para fins de ilustração, foi o longo tempo gasto pelos UNPOL para conscientizar os integrantes da SWAT PNH quanto a necessidade do uso do escudo de proteção balística nas operações reais. O escudo era utilizado nos treinamentos, mas havia grande resistência dos haitianos para utilizá-los nas ações de alto risco. Aos poucos, passaram a usá-los com maior periodicidade, apesar de ainda haver certa resistência. Tal questão ganha destaque em uma missão não-executiva, como no caso da MINUSTAH, cabendo aos policiais da ONU apenas o aconselhamento técnico, sem qualquer tipo de imposição, mesmo que para o bem e salvaguarda da vida dos bravos policiais de elite do Haiti.

Quanto ao tema, Morais[28] relata:

“Lembro-me, certa ocasião, em que acompanhava um exercício no qual os dois oficiais da Swat PNH questionaram o UNPOL francês, do Grupo de Intervenção da Polícia Nacional da França – GIPN, quanto as táticas apresentadas por ele em treinamento sobre o procedimento mais adequado a ser adotada para o resgate de reféns em aeronaves, visto que os dois haitianos haviam feito um curso sobre o tema na  própria França, porém no Grupo de Intervenção da Gendermeria Nacional – GIGN. Chegaram até a discutir em certo momento por terem justamente pontos de vista diferentes. Nesse aspecto os haitianos não podem ser considerados iniciantes, eles também tem conhecimento e pessoal interessado na execução de sua missão da forma mais satisfatória possível.”[29] 

A coragem dos policiais haitianos é sempre outro fator de destaque ao se tratar de operações de alto risco. Demonstram robustez e determinação nas diversas atuações desenvolvidas em todo o território haitiano. Cabe ressaltar que na maioria das operações, os policiais do GIPNH saem, em media, com 20/25 munições ao todo (arma longa e curta), nunca portando carregadores cheios devido à falta de munição, sendo esse provavelmente o maior dos problemas enfrentados pelos integrantes da “Tropa de Elite” da Polícia Haitiana. As armas nunca se encontram totalmente carregadas, tanto pistolas quanto fuzis. São bravos guerreiros atuando em condições adversas.

Ainda dentro do aspecto humano, um dos objetivos da UNPOL é ganhar a confiança dos policiais haitianos do GIPNH, através de ações que promovam a interpessoalidade, a autoconfiança e a união, demonstrando que o grupo deve estar coeso e com objetivos comuns, pois a vida de um dependerá da ação do outro, e vice-versa.

Trabalhar sem meios não é surpresa para policiais de países em desenvolvimento, como o Brasil, e em países em situações econômicas desfavoráveis, como no caso do Haiti. O problema é quando o material humano é afetado. Neste caso, não há solução. Em 2009, durante mais de 2 meses, a SWAT PNH recebeu a missão de fazer a segurança das instalações da Faculdade de Medicina de Porto Príncipe, devido aos tumultos ocorridos naquela localidade. A Unidade chegou e por lá permaneceu, com 3 times táticos se alternando diariamente, em turnos de 8 horas, permanecendo dentro de um caminhão e ‘vigiando o prédio’, mesmo sem haver aulas durante o período. Isto seria responsabilidade do CIMO (tropa no Haiti responsável pelo Controle de Distúrbios Civis). Um claro desvio de competência e missão, não sendo possível mudança do quadro, devido às ingerências de outros escalões dentro da própria PNH.

RELACIONAMENTOS COM DEMAIS INTEGRANTES DA MISSÃO

Atualmente[30], o comandante da SWAT PNH não demonstra tanto interesse nos problemas e dificuldades apresentados pela unidade, não possuindo contato constante com os UNPOLs nem interesse nos treinamentos e operações realizadas pelo seu próprio efetivo. O relacionamento não é considerado bom, inclusive com ingerências negativas, como a transferência, em setembro de 2009, de 12 policiais da SWAT PNH[31] para Pestel (localidade interiorana no Haiti), sem ninguém ser informado o motivo nem as funções que esses policiais haitianos iriam executar no local. A transferência de policiais haitianos para outros fins têm sido uma constante e muitas vezes com desvio das funções principais. A tentativa de aproximação com o comando da PNH e subseqüente melhora deste quadro tem sido regular por parte da UNPOL SWAT.

O GIPNH tem um bom relacionamento com as outras forças de atuação na Missão. As contínuas operações conjuntas vêm aproximando a unidade com as tropas policiais e militares da ONU, UNPOL de várias Comissárias e com outros policiais haitianos. Apesar de tudo, barreiras de idiomas, culturais, e de padronização de conduta, mais uma vez, também ficam evidenciadas nas operações. Mas essas questões fazem parte de toda Operação de Paz. É inevitável, embora possível de se amenizar.

 

RESULTADOS PRÁTICOS EM SITUAÇÕES REAIS

Estima-se que entre os anos de 2007 e 2009, o GIPNH atuou em cerca de 100 operações de alto risco, além de outras consideradas corriqueiras. Não houve registro de quaisquer fatalidades por falhas dos policiais haitianos, tendo sido alcançados inúmeros resultados expressivos, não apenas para a PNH mas para toda a UNPOL e MINUSTAH, como na apreensão de várias armas de fogo, armas brancas, prisões de criminosos comuns, chefes das chamadas “gangues” das favelas haitianas e de marginais com mandados de prisão nacional e internacional, por crimes como tráfico internacional de drogas e armas, como a prisão ocorrida de bandido por alcunha de “Ti-Will” em junho de 2007, em operação conjunta chamada Task Force, na cidade de Gonaives, reduto de revolucionários e local de origem dos conflitos de 2004.

CONCLUSÃO

A GIPNH tem um papel importantíssimo no processo de reestruturação e consolidação da Polícia Nacional do Haiti, por se tratar do principal grupo de assalto do país. Os conselheiros técnicos da UNPOL vêm, ao longo dos anos, levado conhecimentos modernos e técnicas de operações policiais especiais oriundas de vários países. O Time SWAT da Polícia da ONU aconselha os haitianos a respeito de procedimentos adequados para os padrões internacionais de forças policiais especiais e times táticos, além de desenvolver o monitoramento e tutoria do Grupo a fim de evitar erros durante operações de alto risco, estando os UNPOL’s sempre presentes nas atividades desenvolvidas pela Unidade da PNH.

Melhor relacionamento interpessoal, investimento em treinamentos e maior comprometimento dos policiais haitianos são pontos vitais para elevação do nível da “Tropa de Elite” da Polícia Nacional do Haiti. A boa relação entre os membros da UNPOL SWAT e o GIPNH está sempre passível a instabilidade quando da rotação dos UNPOL por término de Missão, pois, devido a questões culturais, leva-se tempo para se o estabelecimento de confiança mútua e reconhecimento dos novos membros da UNPOL por parte dos policiais haitianos assim como diferenças de técnicas e táticas de operações especiais.

Destarte, os UNPOL encontram uma séria de dificuldades impostas não apenas pelos policiais haitianos, mas por normas da própria MINUSTAH no que tange ao treinamento e o caráter operativo da equipe. Toda unidade policial de operações especiais necessita de treinamentos constantes e investimentos diversos na área, pois lidam com as situações extremas e delicadas da atividade policial, onde a vida está sempre “por um fio”. A utilização de equipamentos modernos, apropriados e em boas condições é fundamental para o bom andamento das atividades. 

Como esperar que um time de SWAT esteja apto para operações especiais se não é possível avaliar possíveis reações físicas e a capacidade dos policiais haitianos e do seu armamento em situações reais? O Haiti sofre embargo em relação ao material bélico, e a ONU, por política, não se dispõe a fornecer os meios necessários. Desta forma, a única ajuda provém de países como a França, que através de sua Embaixada, consegue o envio eventual de certa quantidade de munição.[32] 

O descaso e desinteresse dos comandantes da PNH em dar a devida atenção à GIPNH, desvios de funções e emprego de policiais haitianos em atividades indevidas e fora do foco das doutrinas transmitidas pelos UNPOL’s, somados a falta de munições para treinamento, são considerados os principais problemas da Unidade.  Ademais, a SWAT haitiana necessita de mais equipamentos, desburocratização, fornecimento de meios para treinamento integrado, criação de bancos de dados, a urgente adoção de procedimento padrões das técnicas e a criação de um curso específico, dentre outras medidas básicas.

                A mudança é difícil, mas possível. Medidas simples e maiores investimentos nos quesitos citados neste artigo podem ser fundamentais para a consolidação e credibilidade da “Tropa de Elite” da Polícia Nacional do Haiti.

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA

UNITED NATIONS. S/RES/1542 (2004). 30 April 2004. Disponível em <http://minustah.org/pdfs/res/1542_en.pdf>. Acesso em 12 Dez. 2007. 

UNITED NATIONS. MINUSTAH. UNPOL. Directorate of Operations. Duties and resposabilities

UNITED NATIONS. MINUSTAH. Special Operations Unit Chief Post Description: Duties and responsabilities.p 1-2.   

MORAIS, Marco Antonio dos Santos. Publicação eletrônica [mensagem pessoal]. Mensagem recebida por < missoesdepaz@gmail.com >. Em 18 Dez. 2009. 

SILVA, Agrício da. Publicação eletrônica [mensagem pessoal]. Mensagem recebida por <missoesdepaz@gmail.com >. Em 28 Dez. 2009.


[1] Bacharel em Relações Internacionais (UniCEUB, 2006), Graduado pela Academia de Polícia Militar do Distrito Federal (APMB, 1999), Especialista em Direitos Humanos e Democratização (Universidade de Coimbra/Portugal, 2005) e graduando em Direito (UCS/UniDF, 2010). Exerceu cargos na Polícia da ONU (UNPOL) na Missão das Nações Unidas de Estabilização no Haiti (MINUSTAH), entre 2006 e 2007, dentre os quais o de Diretor de Operações Interino da UNPOL.

[2] Bacharel em Direito (UCB, 2008), Licenciado em Educação Física (UCB, 2000) e Graduado pela Academia de Polícia Militar do Distrito Federal (APMB, 2000).  Exerceu cargos na Polícia da ONU (UNPOL) na Missão das Nações Unidas de Estabilização no Haiti (MINUSTAH) no ano de 2009, dentre os quais o de Chefe da SWAT UNPOL. Souza foi o único a brasileiro a ocupar a referida função.

[3] SWAT – Special Weapons and Tactics – sigla originada nos Estados Unidos da América para identificar as unidades de operações especiais que empregam grupos de assalto e táticos de intervenção. A sigla é adotada por instituições policiais de outros países.

[4] Nível Sargentos PM.

[5] Mesmo não sendo uma polícia considerada de regime militar, de acordo com os padrões existentes no Brasil, a PNH tem regime militarizado, com forte hierarquia e disciplina, sendo a carreira policial estruturada em sistemas mesclados de praças e oficiais baseando em padrões importados de outros países.

[6] Os Non-commissioned officers podem ser comparados aos soldados e cabos das Polícias Militares brasileiras.

[7] A Direção de Operações (DIROPS) é responsável pela administração do emprego operacional de aproximadamente 50% de todo o efetivo policial da MINUSTAH. Estão subordinadas a DIROPS todas as Tropas de Choque (Formed Police Unit – FPU), equipes SWAT, e outras unidades especializadas.

[8] O Pilar I da UNPOL na MINUSTAH é a estrutura responsável pela área operacional do componente policial.

[9] UNITED NATIONS. MINUSTAH. Special Operations Unit Chief Post Description: Duties and responsibilities. p 1-2.  

[10] Idem. (tradução própria)

[11] Ibidem.

[12] A área de treinamento é praticada na Academia da Polícia Nacional do Haiti (PNH)

[13] A maioria dos policiais haitianos da SWAT têm grandes dificuldades em nadar.

[14] Agrício da Silva, Major da Polícia Militar do Distrito Federal (PMDF), é veterano da MINUSTAH, onde serviu como membro e chefe da Chefe da Seção de Coordenação entre a UNPOL e a PNH, da Direção de Operações (DIROPS), participando em diversas operações policiais especiais e conjuntas no Haiti, no ano de 2008. Silva é também especialista em operações especiais policiais, tendo exercido várias funções na área, além de ter comandado a Companhia de Operações Especiais da PMDF, sendo instrutor e coordenador de cursos de Operações Especiais no Batalhão de Operações Especiais (BOPE) da PMDF.

[15] SILVA, Agrício da. Publicação eletrônica [mensagem pessoal]. Mensagem recebida por <missoesdepaz@gmail.com>. em 28 dez. 2009.

[16] Apenas uma em condições de uso.

[17] Todas em condições de uso.

[18] Todas em condições de uso.

[19] Não se sabe ao certo o verdadeiro estado de uso do armamento.

[20] Em condições de uso.

[21] Apenas quatro em condições de uso.

[22] Em condições de uso.

[23] Todas em condições de uso.

[24] Todas em condições de uso.

[25] Apenas um sem condições de uso.

[26] Dados relativos a novembro de 2009.

[27]Todas em condições de uso, mas sem nenhum carregador suplementar.

[28] Marco Antonio dos Santos Morais, Capitão da Brigada Militar do Rio Grande do Sul (BMRS), é veterano da MINUSTAH, onde permaneceu pelo período de 12 meses, tendo atuado por seis meses na Direção de Operações da UNPOL (2008), mais especificamente na Seção de Coordenação entre a UNPOL e a PNH, participando em diversas operações policiais e conjuntas no Haiti, muitas delas consideradas operações especiais com a presença da SWAT haitiana e SWAT da FPU da Jordânia.

[29] MORAIS, M.A.S. Publicação eletrônica [mensagem pessoal]. Mensagem recebida por <missoesdepaz@gmail.com>. Em 18 dez. 2009.

[30] Novembro e dezembro de 2009.

[31]Somente NCO’s.

[32]Esta munição, em sua quase totalidade, é enviada para a realização de cursos de formação na Academia da PNH e não são disponibilizados para cursos de especialização e aperfeiçoamento. 

______________________________________

Como citar:

Aceito para publicação em 30/05/2010:

MELO NETO, Sérgio Carrera de Albuquerque & SOUSA, Davis Heberton de. A Tropa de Elite da Polícia Nacional do Haiti. Revista Eletrônica Boletim do TEMPO, Ano 5, Nº15, Rio, 2010 [ISSN 1981-3384]

ARQUIVO EM PDF: ARTIGO – A tropa de elite da PNH (03 MAIO 10) – FINAL.

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Published in: on maio 18, 2010 at 2:17 am  Deixe um comentário  

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