Alto número de missões põe em risco atividade da ONU

18 de fevereiro de 2009 • 20h36 • atualizado às 20h39

Mais de uma década depois que as forças de paz da ONU foram incapazes de impedir os massacres de Ruanda e de Srebrenica, aquela que muitos vêem como principal missão da organização parece estar rastejando na direção de uma nova crise, dizem diplomatas e outros especialistas.

A causa mais imediata, dizem, é a dramática alta no número de missões de paz em todo o mundo e o crescimento no número de tarefas que cada missão precisa executar além da primordial: manter separadas as facções ou nações inimigas. As novas demandas surgem em um momento no qual os países membros equipados com exércitos avançados mostram especial resistência a oferecer mais tropas ou equipamentos de apoio necessários, como helicópteros.

Os desafios só serviram para agravar um problema profundo e já antigo: a continuada falta de clareza sobre a maneira pela qual as Nações Unidas deveriam intervir quando seus membros estão desprovidos das forças militares, da vontade política ou de ambos os fatores, e precisam deter massacres.

“As missões de paz estão contra a parede”, disse Bruce Jones, diretor do Centro de Cooperação Internacional da Universidade de Nova York, que está trabalhando com a ONU nos esforços de reforma. “Existe a sensação, em todo o sistema, de que a situação é séria – as forças estão distendidas, sobrecarregadas e desprovidas de recursos”.

Entre os fracassos mais perceptíveis dos últimos meses estão a incapacidade das forças de paz no Congo e em Darfur para impedir a violência que resulta em vítimas civis, a dificuldade em encontrar efetivos suficientes para qualquer dessas missões e o fato de que nenhum país se dispõe a liderar uma missão na Somália.

No Congo, em dezembro, um contingente de 100 soldados da força de paz estava a menos de dois quilômetros de distância do local de um massacre rebelde que, segundo organizações assistenciais, resultou em 150 mortes, mas preferiu não intervir. As forças de paz reportaram escassez de pessoal e equipamento, e não tinham a capacidade de informações necessária para determinar o que estava acontecendo na cidade vizinha.

Em algumas zonas de conflito, as forças de paz não dispõem da tecnologia necessária a cumprir nem ao menos uma de suas tarefas mais básicas: acompanhar os movimentos de grupos armados que elas têm por missão manter separados.

Os problemas levaram diversos líderes dos esforços de paz da ONU a iniciar nova rodada de estudos sobre como garantir que forças de paz possam cumprir suas missões; os estudos foram prorrogados em diversos meses para tentar evitar sugestões que servem apenas como paliativos e são rapidamente abandonadas.

Mas alguns especialistas dizem que a mais importante correção talvez seja a mais difícil. O Conselho de Segurança, afirmam, precisa evitar o envio de missões a países onde não existe paz real a ser mantida.

A diferença entre dois mandatos de missões de paz, um que vigora desde 1974 e outro que foi adotado menos de 14 meses atrás, explica boa parte das dificuldades que as tropas da ONU agora enfrentam.

O mandato que estabeleceu a força da ONU na fronteira entre a Síria e Israel quase 35 anos atrás tem apenas algumas sentenças de extensão, e dispõe basicamente que as tropas verifiquem o cessar-fogo. Desde então, as cenas mais violentas que os soldados de capacete azul presenciaram foram incidentes em que animais pisaram sem querer em minas.

Já o mandato que estabelece a missão de paz da ONU em Darfur tem mais de duas páginas, e detalha uma bateria de tarefas que incluem proteção a civis, orientação de um processo político inclusivo, promoção do desenvolvimento econômico e dos direitos humanos e monitoração das fronteiras com os países vizinhos.

¿Antes as forças estavam lá como um símbolo importante e não como unidades ativas¿, disse Nicholas Haysom, diretor de assuntos políticos, missões de paz e atividades humanitárias da ONU.

O escopo e número de missões terminou expandido em larga medida para corrigir passadas falhas.

Depois de enviar cinco missões sucessivas ao Haiti, onde a violência irrompeu de novo depois que elas partiram, por exemplo, a ONU decidiu que as forças de paz precisavam fazer mais para garantir a estabilidade econômica dos países, antes de partirem.

E depois dos massacres em Ruanda e na Bósnia, a ONU acrescentou a proteção aos civis como prioridade em cada missão.

Mas muita gente considera que as missões de paz se tornaram uma panacéia, e que cada envio de tropas é considerado prova de que o Conselho de Segurança está dedicando atenção a uma crise, quer as tropas sejam efetivas, quer não. Além disso, o Conselho costuma prorrogar longamente as missões depois de aprovadas.

Como resultado, o pessoal total empregado em missões de paz da ONU subiu de 40 mil em 2000 a 113 mil soldados, policiais e civis, em 18 missões, no ano passado.

O orçamento das missões de paz inchou até os US$ 8 bilhões, dos quais 27% são cobertos pelos Estados Unidos. Especialistas da ONU e externos dizem que duas mudanças são essenciais: as forças precisam ser treinadas especificamente para cada tarefa de suas missões; e, o mais importante, a ONU deveria resistir a enviar forças de paz para regiões onde haja combates ativos.

 

Fonte: http://noticias.terra.com.br/mundo/interna/0,,OI3584827-EI294,00.html

The New York Times

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Published in: on janeiro 23, 2010 at 11:45 pm  Deixe um comentário  

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