Policial militar brasileiro descreve os dias vividos no Haiti depois da catástrofe

 

“Meus caros amigos e compatriotas brasileiros,

Um dia no Haiti vale cem dias em qualquer outro canto do mundo. O tempo aqui simplesmente não passa. Nas ruas a dor estampada em cada rosto, em cada esquina alguém, no mínimo, reclama de um parente perdido. O caos foi instalado e agora reclama seu prêmio.

As ruas não estão seguras em lugar nenhum. Valas comunitárias são cavadas, corpos as centenas são simplesmente depositados, após serem queimados, lembrando cenas do holocausto da segunda guerra mundial. Em menos de um mês meus olhos viram, o meu corpo sentiu e minha ainda, sã consciência, tenta esquecer  o verdadeiro inferno na terra. É horrível!

O Haiti, hoje, pode-se resumir em duas palavras: morte e decadência.

Porém, por outro lado, vi aqui também, de uma parte pequena desse povo: solidariedade, compromisso, afeto e amor ao próximo, pois em diferentes locais por onde passei, vi haitianos arrancando pedras, escombros com as próprias mãos na tentativa de encontrar algum sobrevivente nos diversos locais que foram atingidos pela catástofre que assolou esta pequena nação. Hospitais improvisados foram construídos em casas normais que tiveram a sorte de não terem sido afetadas e faixas em branco onde li, sem acreditar no que via: “ Please, Help Us” (Por favor , nos ajudem) estavam estampadas numa tentativa desesperada de obter alguma assistência.

 As equipes de buscas que aqui chegam, montam suas estações e tentam ajudar no que é possivel, porém acreditem, nem se o mundo todo mandasse gente pra ca, seriamos capazes de ajudar a todos os necessitados, ao mesmo tempo.

Apos seis dias de buscas incessantes, o odor putrido da morte se instala em todos os lugares, obrigando a qualquer um ficar enauseado.

As ruas são bloqueadas com corpos pelos habitantes, que estão revoltados pela situação, protestos se instalam, grupos de marginais que fugiram da cadeia pública haitiana se aproveitam da situação e perpetram o medo, inclusive em nós que aqui estamos, pois chegara a hora que entraremos em combate armado com eles.

Os animais nas ruas se deleitam com a carne queimada dos corpos que jazem em todos os diferentes lugares e como se não bastasse tudo isso, ainda temos que aguentar o tremors subsequentes, que acreditem, não são nada confortáveis, especialmente para quem ja é, de certa forma, um sobrevivente aqui.

A missao fica cada vez mais dificil, estamos cansados, estressados, tristes pelos corpos de companheiros que foram soterrados, frustrados pelos que ainda não encontramos, enfim dormindo nada, comendo pouco e trabalhando muito, mas não pensem que isso é uma reclamação formal, não! Longe de mim, pois nossos problemas não são, literalmente, nada comparados aqueles que passam tudo isso, as familias que aguardam com esperanca notícias de quem ainda não foi achado, não temos do que reclamar, sabem?

Pelo contrário, rogo todo dia a Deus que este seja misericordioso e que nos de mais uma vez a oportunidade de ajudar a quem precisa, pois o que seria deles sem a nossa presença aqui? Nãome considero nada mais do que um Oficial militar Brasileiro que está tentando ajudar da maneira que pode, mas tenham em mente que todos nós temos nossos limites e ja passei do meu faz tempo, por isso queria aqui me desculpar com todos os Brasileiros por nao ter podido fazer mais e melhor, não tenho desculpas, apenas me concentro no que poderá ainda ser feito, porém, agora, com o devido tempo. Que Deus me perdoe por nao ter ajudado o suficiente e que me de forças pra tentar de novo a cada dia.

Mãe, ainda tô por aqui, não se preocupe e siga com suas preces!

A minha familia e meus amigos não tenho palavras para descrever o quanto vcs me ajudaram e ainda me ajudam, pois parece que cada vez que venho pra frente de um computador que vejo suas mensagens de apoio, solidariedade, carinho, forca e afeto, é como se minha bateria interna fosse recarregada e meu corpo tomasse uma dose nova de energia. É simplesmente impactante. A voces, meu muito obrigado e um dia a gente se ve de novo.

 TEN RICARDO COUTO – UM BOINA AZUL BRASILEIRO. 

 AINDA TRABALHANDO….”

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Published in: on janeiro 19, 2010 at 4:07 am  Comments (2)  

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2 ComentáriosDeixe um comentário

  1. Boa noite tenente Ricardo Couto,

    Embora se dirija directamente, como é normal, aos seus amigos e compatriotas brasileiros, quero lhe dizer que também eu, enquanto cidadão português, sinto um enorme orgulho pelo seu trabalho em condições tão inimaginávelmente adversas.

    Obrigado Tenente! Seria uma enorme honra prestar-lhe continência.

    DEUS, os seus familiares, a sua unidade e todos os seus compatriotas deverão estar imensamente orgulhosos do seu trabalho e do dos seus camaradas.

    Quem pede desculpa sou eu!

    1.º – por não estar ao seu lado;
    2.º – por, infelizmente mais uma vez, Portugal ter enviado uma diminuta ajuda, desadequada no tempo e nos meios.

    Os meus sentimentos pelos seus camaradas e amigos falecidos neste trágico acidente.

    Permita-me, força e muita coragem camarada!

    Abraço,

    PR

    PS: A todos os brasileiros:
    Vocês têm muitos heróis no Haiti, perderam alguns.
    Saibam honrar os que perderam e os que ainda têm e engrandecem a Vossa Nação.

  2. Caro tenente Ricardo, antes de mais nada, parabéns pela homenagem que lhe foi feita, merecidamente, pelo Estado de Pernambuco.

    Fiquei comovida com sua carta e gostaria de publicá-la na revista DEFESA LATINA. Gostaria que me permitisse. Peço-lhe fazer contato com mirianpaglia@gmail.com para confirmar sua licença.
    Agradeço-lhe pelo trabalho que faz em nosso nome, os brasileiros,

    Mirian Paglia Costa

    se quiser conhecer nossa revista, acesse por favor, os números 1 e 2 nos links:

    http://content.yudu.com/Library/A1nrb0/DefesaLatina1/resources/index.htm?referrerUrl=

    http://content.yudu.com/Library/A1nrar/DefesaLatina2/resources/index.htm?referrerUrl=


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