Aos Heróis

Aos Heróis, 

Há cerca de dezessete anos, quando eu decidi entrar para a Polícia Militar, meu pai tentou me subornar para que eu não o fizesse. Não queria que eu entrasse para a mesma corporação da qual ele fez parte por 30 anos.

Fingindo ter aceito a proposta, pedi-lhe algum dinheiro adiantado, fui correndo para o banco (na época, Bandepe) e fiz a minha inscrição. Alguns meses mais tarde eu estava me apresentando em Paudalho para iniciar os três anos mais longos da minha vida e que marcavam apenas o início da minha jornada.

O fato de meu pai não querer que eu me tornasse policial militar nada tinha a ver com descrédito na instituição, mas, por ter se dedicado pelo que hoje representa a metade de sua vida, a uma profissão tão nobre e, ao mesmo tempo, inglória, ele não queria o mesmo destino para mim. Só que todos vocês sabem o que é adolescente, né? Eu não estava nem aí para os conselhos dele, segui meu coração, minha vocação e hoje sou policial militar, com muito orgulho.

O que preocupava meu velho pai eram todas as situações que eu, a exemplo dele e de tantos outros, a seu tempo, enfrentaria no meu dia-a-dia: situações de estresse, cansaço, medo e perigo, onde a nossa vida nunca é a mais valiosa e nossos sentimentos precisam ser sempre controlados com a frieza de uma máquina ou o autocontrole de um monge budista.

Nossa profissão é muito ingrata, trabalhamos quando os outros se divertem, velamos quando os outros dormem, não podemos ter medo quando os outros estão apavorados e precisamos de uma força sobre-humana quando os outros já fraquejaram.

Exemplo claro disso é a situação que está acontecendo no Haiti. Homens, pessoas comuns como você e eu, assumiram o posto de heróis que lhes foi outorgado por aqueles que, em desespero, esquecem-se de que os super-poderes só existem na ficção.

Nossos heróis são pessoas de carne e osso, que também sentem fome, sede, frio, sono e medo, mas que sabem que não podem demonstrar seus sentimentos e nem se entregar, pois juraram que defenderiam o próximo “mesmo com o risco da própria vida”.

Todos são heróis!

Os que sucumbiram ao desastre são HERÓIS por saberem que correriam riscos e, ainda assim, deixaram a segurança do lar e o aconchego de suas famílias para cumprir uma missão nobre que era a de ajudar pessoas que não conheciam, mas que precisavam deles.

Os que sobreviveram são HERÓIS por, ao invés de quererem sair dali o mais rápido possível (já que isso faz parte do instinto humano de sobrevivência) preferiram ficar e assumiram uma tarefa comparável às de Atlas ou de Hércules, tendo que se multiplicar em vários para poder dar conta de tudo ao mesmo tempo: busca por sobreviventes, resgate de corpos, manutenção da ordem, controle e distribuição de recursos e sabe lá Deus o que mais? Deixando seu corpo, humano, em segundo plano.

Aos que se preparam para ir ao Haiti, já são HERÓIS por terem se voluntariado a encarar o perigo desconhecido, já que não sabem o que os espera, por estarem marchando na direção oposta ao que a “sensatez” recomenda, que seria fugir do perigo e não ir de encontro a ele. Antes disso, aceitaram o chamado do dever e se preparam para enfrentar o lhes aparecer pela frente.

Todos, saibam que são heróis para mim! Motivo de orgulho e admiração. Por causa de ações de pessoas como essas que eu decidi entrar para a Polícia Militar, para poder me tornar um deles! Nossa missão é, como temia meu velho pai, ingrata e recheada de momentos difíceis, entretanto fomos forjados para isso e nossa maior recompensa e a de termos no peito, não medalhas, mas o sentimento de que fizemos o nosso melhor.

Vocês que estão no Haiti, lembrem-se de que, ainda que não fisicamente (mas estamos tentando resolver isso), estamos com vocês. Confiamos em sua força e perseverança, pois “nos caminhos mais duros, só os mais duros caminham”, e vocês têm demonstrado que são capazes e duros o suficiente.

Aos que se foram, onde quer que estejam, mantenham a cabeça erguida e estufem o peito com a sensação do dever cumprido: “Vitória sobre a morte é nossa glória prometida! HURRA!”

Força e Fé!

Augusto Vilaça

Recife-PE, 18/01/10

Augusto Vilaça é Capitão da Polícia Militar de Pernambuco e atualmente integra missão de Paz no Timor Leste – UNMIT 

Um abraço e fiquem em Segurança.

Best wishes, and stay safe.

Nota: Artigo publicado no Jornal O Globo.

 

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Published in: on janeiro 19, 2010 at 1:03 am  Deixe um comentário  

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