Missão Timor Leste – O Massacre de Dili e a situação no Timor Leste (Artigo Defesanet)

Kaiser Konrad

Fonte: Site Defesanet

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“Mesmo com a chegada de um contingente internacional para a imposição da paz formado por tropas da Austrália, Nova Zelândia, Malásia e Portugal, a situação no Timor Leste continua crítica. Gangues formadas por jovens ligados a milícias rebeldes saqueiam repartições públicas e estabelecimentos comerciais, incendeiam casas e carros, criando um clima de terror em diversas cidades, principalmente na capital.

No fim de maio, Dili foi palco de um dos episódios mais lamentáveis da recente história do país. Defesanet traz aqui uma entrevista exclusiva com o Major Leonardo Sant’Anna, da Polícia Militar do Distrito Federal, um dos três brasileiros que estão a serviço da United Nations Police no Timor Leste. Major Sant’Anna participou do processo de negociação para a rendição dos policiais timorenses e foi testemunha ocular daquele que hoje é conhecido como o Massacre de Dili.

Defesanet – Como foi o contato que você teve com os militares que assassinaram os policiais a tiros de fuzil? Como foi a conversa que teve com eles antes do massacre?
Leonardo Sant’Anna – No momento em que eu me dirigi ao grupo de seis militares fui acompanhado pelo policial espanhol Juan Cuadrado e pelo tenente coronel australiano David Mann. Eu acabava de ter a confirmação com uma outra fração militar que já havia concordado em parar de atirar no Quartel General da Polícia Nacional do Timor Leste. Mais uma vez, foi feito contato com esse novo grupo para que eu pudesse me certificar de que eles tinham plena ciência do cessar fogo que havia sido determinado por um dos comandantes das Forças Armadas do Timor Leste. Eu precisava mostrá-los que nós estávamos desarmados, tanto os membros da ONU, como os policiais do Timor. Nossa comunicação verbal foi muito clara. Dadas as circunstâncias e apesar do perigo que nós corríamos, não havia outra forma de tentar salvar os policiais.

Assim que eu mencionei que era brasileiro, quando fiz um questionamento se algum deles falava português, dois deles se mostraram realmente muito simpáticos, falando sobre o gosto que tinham em estar com policiais militares do Brasil, o que me deu um certo conforto para ações futuras que foram tomadas. Nessa conversa, que se estendeu por cerca de 15 minutos, tudo se processou de maneira mais interessante. E naquele momento não havia qualquer sinal expressivo de agressividade por parte dos militares. A minha preocupação passou a ser com a tentativa de garantir que eles permanecessem calmos durante a passagem da coluna de policiais que fora formada para que nós nos deslocássemos para a base da ONU, todos em segurança.

Defesanet – Como foi para você presenciar isso tão de perto? Que sentimentos lhe despertaram?
Leonardo Sant’Anna – Para mim, particularmente, que estava em contato mais direto com eles, foi extremamente difícil compreender como ocorreu esse massacre. Mesmo estando em uma missão internacional nunca passou pela minha cabeça que eu seria uma testemunha viva de um massacre contra policiais. Foi algo muito diferente de tudo o que eu já presenciei nestes meus 17 anos como policial militar. É inimaginável que membros de um exército regular, dentro da nossa realidade, possam ” abater” policiais do seu próprio país por qualquer que seja o motivo. Na ocasião, depois de resgatar todo o grupo de dentro do prédio em que eles estavam, nós estávamos desarmados e havia toda uma identificação da ONU em carros, uniformes e bandeiras. Contudo, nada disso foi respeitado, tanto que tivemos dois policiais da ONU feridos, um do Paquistão e outro das Filipinas.

O primeiro sentimento que me despertou foi o de ter falhado porque eu pensei que aqueles agressores quando dispararam na nossa direção com seus fuzis estariam dispostos a matar a todos. Depois, eu vi que tivemos uma grande vitória, porque após o desenrolar de tudo, eu percebi que se nós não tivéssemos retirado todos eles das instalações da polícia, que ficou sob intenso ataque das granadas, metralhadoras e fuzis, por mais de duas horas, todos eles teriam sido cruelmente mortos e nós não teríamos tido a oportunidade de salvar mais de 60 membros da Polícia Nacional do Timor Leste. Eu acho que foi um feito muito importante e isso me dá muito orgulho do trabalho que eu pude desenvolver.

Defesanet – Como você descreve a situação de caos que toma conta do Timor Leste?
Leonardo Sant’Anna – É uma situação extremamente delicada. Eu a descrevo como um desafio muito grande para os governantes daquele país. O Timor possui, nesse instante, uma grande quantidade de gangues, de desordeiros e mais de um terço do efetivo das forças armadas foi demitido, ou então, rebelado, e ainda com a posse de algumas armas. Enquanto isso, a polícia da capital está tentando se recompor dessa tragédia. É realmente muito triste ver um país que já sofreu tanto, que estava praticamente reconstruído, ter que passar por todas essas dificuldades novamente.

Defesanet – Qual a origem real do problema? Como entender tamanha violência e a frieza dos atos cometidos?
Leonardo Sant’Ana – Nós tivemos uma quantidade muito grande de fatos que foram sobrepostos e é bastante complexo distinguir qual deles foi o estopim de tudo. A questão é muito abrangente. Por exemplo, o aspecto dos problemas entre os timorenses do leste e do oeste pode ser uma das vertentes. No entanto, tratando especificamente do ato criminoso que eu vi, também não está dentro da nossa capacidade de compreensão como militares que deveriam garantir a segurança do povo de Timor Leste, pudessem ter a capacidade de eliminar uma dezena de policiais do seu próprio país, como se fosse uma tarefa cotidiana qualquer. Definitivamente, posso caracterizar que violência e frieza não são suficientes para descrever o que aconteceu.

Defesanet – Você caracteriza a situação como de uma guerra civil?
Leonardo Sant’Anna – Apesar da idéia de contendas entre pessoas do leste e oeste do Timor, não existe um elemento de conquista territorial como foco principal da questão. E não estão sendo travadas também as batalhas convencionais entre exércitos antagônicos, o que descarta a possibilidade de guerra civil. Existem, sim, muitos grupos civis aproveitando-se da situação de ausência das forças de controle do estado na capital para realizar uma série de atos de vandalismo e saques generalizados. No entanto, não podemos tecnicamente caracterizar isso como sendo uma guerra civil.

Defesanet – Qual a importância e o papel da ajuda internacional ao Timor?
Leonardo Sant’Anna – Nesse instante eu vejo como a única forma de restabelecimento, principalmente da segurança e do auxílio aos deslocados daquele país. Todas as pessoas que querem e precisam se esquivar do conflito têm se socorrido na ajuda internacional. E esses seriam os primeiros elementos para que se permitisse a tranqüilidade necessária para que o governo, gradativamente, recuperasse as suas demais instituições.

Defesanet – Onde você está hoje? Como está a situação do país nesse momento?
Leonardo Sant’Anna – Prefiro não mencionar onde estou para manter minhas condições de segurança. O que eu posso dizer é que fomos evacuados do Timor Leste por determinação do Representante do Secretário Geral da ONU no Timor, pelo fato de termos tido uma participação muito ativa nesse processo de proteção dos policiais durante o massacre. Tanto eu como o Juan estivemos tentando, em frente a fuzis, evitar que acontecesse o massacre. Mas existe a possibilidade de pessoas insatisfeitas com o que realizamos poderem nos encontrar em qualquer ponto de Dili ou do território timorense. Infelizmente, depois do ocorrido o controle de parte das armas de fogo no país ainda pode ser considerado um problema. E nós também trabalhamos com policiais de diversos distritos. Conseqüentemente, podemos ser facilmente reconhecidos por muitos membros de corpos de segurança institucionais. No momento não tenho como retornar para o Timor. Estou na produção de relatórios e análises das informações que me são passadas.

Defesanet – Como foi o dia posterior ao Massacre de Dili?
Leonardo Sant’Anna – A partir do dia 25, depois do ocorrido e apesar de não ser essa a nossa função, iniciamos patrulhas internas durante toda a noite e todo o dia dentro da Base. Participaram da patrulha militares e policiais. Já tínhamos notícia de que os militares australianos estavam em território timorense, mas, como os tiros não cessavam nos bairros próximos de onde estávamos e tínhamos mais de 300 pessoas das demais agências da ONU concentradas nesta instalação física, algo teve que ser feito para melhorar a sensação de segurança de todos. Ainda estavam sob nossa proteção todos os policiais sobreviventes do massacre. Junto com isso, como os membros do corpo de segurança institucional da ONU estavam assoberbados de atividades quem mais poderia ser utilizado para garantir que estivéssemos protegidos? Não tínhamos muitas outras alternativas para atender a necessidade de proteção de todos aqueles homens, mulheres e crianças. Naquele instante, que era de incerteza e total escuridão para algumas pessoas, foi fundamental que pudéssemos tranqüilizá-las e tínhamos que fazer com que, de alguma forma, vissem um pouco de luz.

Uma preocupação global levantada foi a possibilidade de um pânico generalizado que pudesse ser causado por quem nunca tinha sofrido este tipo de trauma. Também foi ressaltado que já estávamos nos aproximando de 48 horas contínuas de estresse, ficando bastante difícil para quem estivesse sob nossa responsabilidade indireta – os outros funcionários da ONU – conseguir manter o autocontrole.

Nem todos os policiais participaram do trabalho. Isso foi feito voluntariamente e muitos não se sentiam confortáveis ou em condição de realizar tal atividade. No dia 26 tudo continuou da mesma forma até o meio dia, com todos bastante exaustos e trabalhando com dificuldades naturais de concentração e cansaço físico. Estávamos em pouco mais de 20, para esta tarefa.

Defesanet – Há informações de que a Base da ONU foi atacada, como isso aconteceu?
Leonardo Sant’Anna – Nao chegou a ser um ataque por conta de nossa pronta intervenção. Nos já tínhamos, durante as patrulhas internas que fizemos, tomado conhecimento de grupos de pessoas rondando a base. As informações vieram através de vigias prestadores de serviço para a ONU ou uns poucos moradores locais que ainda circulavam pelas ruas. Estes grupos estavam armados com pistolas, armas longas, facões, arco e flecha e outras armas brancas; eram compostos por pessoas que não podíamos definir se eram ou não componentes de forças de segurança regulares. As patrulhas continuaram e, no início da tarde, um colega americano que estava em seu turno de vigilancia informou via rádio sobre a presença destes grupos em posição de ataque e tentando entrar pela área que era voltada para as instalações e salas onde se concentram os serviços de comunicação. Já tínhamos um plano emergencial preparado e grupos subdivididos. Não havia equipamentos de proteção individual para todos, mas o que havia foi distribuído entre os policiais e militares que participaram do evento. Sob comandos distintos, cada grupo, de 05 policiais/militares aproximadamente, se deslocou para as proximidades das regiões onde se concentrariam os ataques, tomando por base o que nos era informado via rádio.

Defesanet – Os policiais da UNPOL trabalham desarmados, como foi que vocês fizeram a própria segurança e das instalações da ONU?
Leonardo Sant’Anna – Essa é uma pergunta interessante e, se não for esclarecida, vai parecer que estávamos realizando nossas tarefas com vendas nos olhos. Utilizamo-nos da única coisa que possuíamos naquele momento: as armas recolhidas dos policiais que se entregaram e haviam sido covardemente mortos no dia anterior. Tivemos que construir e respeitar um certo rito. Toda a munição e armamento que pudemos recolher antes da tragédia do dia anterior foi criteriosamente limpo; as munições foram inseridas em carregadores, de pistola e fuzil 5.56, e as munições de calibre 12 foram distribuídas em conjuntos de 13, conforme carga máxima inicial e possibilidade de recarga imediata deste armamento.

No dia anterior já havia sido feita uma checagem de quem tinha proficiência em que tipo de armamento, podendo pegar armas menos ortodoxas (fuzis e cal. 12) apenas os que eram habilitados para tal. Esta parte dos trabalhos, que se não fosse realizada comprometeria enormemente nossa própria segurança, foi cumprida como se houvesse uma liturgia pré-determinada e reconhecida por todos. Desde o que havia ocorrido no dia 25, trabalhávamos com a possibilidade do pior acontecer a qualquer instante. Foi uma tarefa muito difícil, dado que alguns policiais e militares nunca haviam participado de uma missão real desta envergadura. Como chefe de uma das equipes tive que verbalizar bastante sobre o que cada membro do grupo deveria fazer e como deveria se posicionar durante a ação. O ápice disso ocorreu quando tive que desviar minha atenção da equipe e focar meu objetivo na família do Chefe de Polícia da ONU. Um policial vinha escoltando a esposa do Chefe de polícia e mais três ou quatro crianças; porém vinha muito vagarosamente, alegando que não queria assustá-los. Infelizmente tive que ser um pouco mais rude com eles pois a estrutura de proteção mais próxima era composta por um material muito frágil, que permitiria facilmente a passagem de tiros de fuzil no caso de realmente nos envolvermos num confronto armado.

Entre comunicações truncadas de entrada e/ou saída do grupo de agressores de dentro da base, nossa ação de proteção armada durou algo em torno de 30 minutos. Especulo que, talvez pelo fato de terem percebido nossa movimentação e terem visto que realmente havia um esquema organizado de reação, não houve um confronto. Motivos para tal não faltariam, sendo que o maior deles era o fato de estarmos protegendo todos os policiais que solicitavam a entrada nas instalações das Nações Unidas e ainda se encontravam no interior destas instalações. Para certos componentes de nossa equipe, os quais não tiveram chances anteriores de estarem em uma situação como esta, tenho certeza que foi uma iniciação bastante contundente. Algo muito difícil de esquecer.

Defesanet – Existe uma vontade popular e do governo timorense que o Brasil também envie tropas para integrar essa missão emergencial de paz no Timor Leste?
Leonardo Sant’Anna – Como se trata de algo em um nível de decisão governamental, não posso responder com propriedade esta pergunta. O que posso dizer é que o policial e o militar brasileiros normalmente têm uma aceitação muito positiva onde quer que estejam. Nossa diversidade cultural e racial sempre foi um elemento muito importante e positivo em relação à facilidade de relacionamento que conseguimos construir em qualquer parte do planeta que nos encontremos. Já visitei países europeus, africanos, asiáticos, fui à América do Norte, estive em contato com pessoas de mais de 30 países e já participei de duas missões no exterior. Uma coisa posso lhe garantir: nossos policiais e militares não deixam a dever a profissionais de segurança de qualquer país do mundo. Nossa diferença talvez ainda esteja concentrada no investimento em treinamento e equipamento dos profissionais de segurança o que, por incrível que pareça, também é aproveitado e colabora com nossa forma de comportamento. A capacidade de gerenciamento de situações delicadas que o brasileiro possui é algo impressionante. É comum que consigamos, nas mais diversas circunstâncias, trazer sempre um resultado muito justo e perfeito para problemas complexos. Isto nos transforma em colunas muito firmes para qualquer estrutura de missão de paz.

Quiçá em um futuro próximo possamos ter, por exemplo, um centro de treinamento voltado exclusivamente para a preparação de brasileiros para esta função – o que já existe em países como a Suécia – ou até cursos específicos dentro do nosso país, para que policiais e militares brasileiros possam garantir uma participação mais eficaz para esta tão difícil atribuição que temos recebido freqüentemente , como faz o Departamento de Estado norte americano antes de encaminhar seus policiais para tais atividades junto a ONU.

Defesanet – Que lição você tira deste episódio?
Leonardo Sant’Anna – Como consultor de treinamento e segurança para as Nações Unidas, eu entendo que é extremamente importante que haja um processo efetivo de verificação de controle disciplinar, ético e moral que o Estado exerce sobre seus efetivos de corpos de segurança. Sem isso, ficou comprovado que nada pode funcionar corretamente. Como policial militar, mais uma vez eu vi que, na nossa profissão, a preservação da vida é algo que sempre vai estar acima de qualquer outra atividade. Mas a lição de vida que eu tiro disso, como homem, é que pude sentir o quão gratificante é poder ter participado de um evento triste, mas ímpar, que acabou salvando a vida de mais de 60 pessoas. Isso nada, nem ninguém, vai tirar jamais da minha memória.”

O Major Leonardo Sant’Anna tem 35 anos, há 17 está na Polícia Militar do Distrito Federal. É Bacharel em Segurança Pública, Pós-graduando em Conflitos Armados Internacionais pela Universidade de Brasília. Integrou as Missões de Paz da ONU UNAVEM/1997 e MONUA/1998 em Angola e, UNOTIL 2005/2006 no Timor Leste. Nessa última, coordenou todos os cursos de táticas policiais avançadas para policiamento de fronteira; introduziu na Polícia Nacional do Timor Leste o uso da espingarda Calibre 12 e foi instrutor de gerenciamento de crises. Na PMDF, iniciou a carreira como operador tático em 1994 no atual Batalhão de Operações Especiais. É especialista em controle de distúrbios civis e operações táticas de alto risco. Trabalhou como segurança do Governador do DF, instrutor de tiro, operações policiais especiais e proteção de autoridades e testemunhas. Foi membro da equipe de negociação e Contra-terror no Encontro Mundial de Presidentes (Brasília – 2005). Já exerceu atividades na Academia de Polícia Militar de Brasília, Secretaria de Segurança Pública do DF, Centro de Formação e Aperfeiçoamento de Praças, Exército Brasileiro.

Fonte:  http://www.defesanet.com.br/terror/timor_dili_santanna.htm

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Published in: on janeiro 11, 2009 at 2:56 am  Comments (2)  

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2 ComentáriosDeixe um comentário

  1. JULGAR OS CRIMES CONTRA A HUMANIDADE EM TIMOR-LESTE petição dirigida ao Secretário-Geral da ONU
    http://www.petitiononline.com/etcah/petition.html

    East Timor Law and Justice Bulletin

  2. Another great entry, nice one ecigarette retailer


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